quinta-feira, 1 de julho de 2010

Madonona

Imagem: Fernanda Franco


Ela acorda, sem conseguir abrir os olhos. Um véu alaranjado aquece seus olhos, o gosto doce inunda a boca. A dor reaparece aos poucos, como os primeiros raios de sol. Ela quer se levantar, mas a gravidade a mantém paralisada. Quer chorar, mas suas pálpebras se recusam a liberar o excesso.

Madonona, Madonona, Madonazona, Madonão.

Cala boca! Cala boca! Cala boca!

Mais cedo, ela despertou com se tivesse levado um tapa de mão cheia no rosto. Sonhara com as meninas da escola, garotas más que a elegeram alvo principal para suas maldades. Também, num misto de consciência e baixa estima, não poderia lutar contra os fatos expostos sempre que se desnudava ou era acusada pelo reflexo. Gorda. Madonona! 12 anos. Gorda. Fã de Madonna, daí Madonona!

Madonna é tudo. Namora um gato, é linda, adorada, canta super bem, rica, pele linda, cabelo lindo interaça; tudo! O que era Maria: 12 anos, gorda, negra, cabelo ruim, pele ruim, voz feia, feia, feia, gorda, gorda, mora em barraco, pobre, gorda, feia, b.v., Madonona!

Esta noite, ela vai a uma festa. Pela primeira vez desde que a gordura passou a determinar sua posição no mundo, foi convidada. Um churrasco do primo, do movimento, num comunidade da Zona Oeste. Os dois não se viam há tempos, mas o primo era muito ligado na sua mãe, que tomou conta dele quando era pequeno. Agora, era rei e, para comemorar, chamou família, amigos e soldados para fazerem as honras e saberem a quem terão de obedecer. A mãe não está muito entusiasmada, mas resmunga que talvez ter um parente importante pode ajudar em algum momento. Maria só pensa em festa, dançar, se divertir, beijar muito, se acabar na sarjeta! Quer ir para um lugar onde pode ser linda e onde vai encontrar um homem. Quem sabe pedir pro primo ajudá-la com seu problema com as meninas da escola...

É perto das três quando partem. Maria com sua melhor roupa, roupa de Madonna, não Madonona! Pegam a van lotada, povo mal cheiroso, suado, se esfregam em tudo, Maria, prestes a ser Madonna, reclama, gente tô perfurmada, quéisso? Esse tipo de gente, sem consideração ou desejos, ela era essa gente para o pessoal que vivia nos prédios logo mais à frente. Maria olha pela janela e escuta os jovens que nasceram no lado certo, com dinheiro e tudo de bom, os olhando para baixo e rindo: Carro de Paraíba! Nem era nordestina, mas para esses que andam em um mundo que só conhece pela vista, era tudo a mesma coisa. Maria (Madonona!) acha que eles estão certos em pensar assim. Para quem tem educação, morro é zoológico. Não é à toa, é alvo de turistas em jipe, a fotografando como se fosse um elefante de favela carioca.
Chegam. Sou a tia do Tinhozinho; sou a prima. Imediatamente, foi como se todo o sofrimento (Madono...) valesse a pena. Era como o pastor falava: a gente é triste, ganha pouco e é visto como merda para ser rei no céu. No reino de Deus, somos felizes e todos nos amam. Maria sempre dava o que conseguia na coleta, para comprar seu terreno na ladeira do Senhor e ser Madonna finalmente. Mas, melhor do que estar ao lado de Cristo, era ser prima de Tinhozinho. Essa aqui é a minha priminha! Beijo, abraço, apresentação para geral, todo mundo sabia quem era ela. Era Madonna. (Mado...)

Guaraná na mão, linguiçinha, carne de frango, picanha, franguinho, tudo, tudo, tudo sendo oferecido com um sorriso no rosto. Sou Maria Madonna, prima de Tinhozinho! Canta e dança até se acabar na sarjeta. Ri como nunca, dança e come. Escondida, bebe uns copos de cerveja, no banheiro feminino, uns tapas com as outras garotas-mulheres da festa, desta vez, de baseado, não tapa na cara. Aquele era a felicidade, o reino do pastor e os prédios altos dos bacanas. Cantava alto, todas incentivavam, mais cerveja, mais maconha, mais carne e a quadra girava com os clipes que assistia na TV. De repente, beija. Não era mais b.v. Assim, em mais uma rotação da quadra e do terreno da felicidade, pega um gatinho e acariaca o cacete. Madonna é poderosa, escolhe seus homens, extrai prazer do prazer deles e engole tudinho, lambendo o cacete como se não houvesse amanhã.

Até o motel, foi um passo. Como nos clipes da musa, estava num lugar e, sem mais sem menos, em outro. Ela e os gatinhos. Os gatinhos dentro dela. O espelho no teto rodopiava e ela se via como o brilho no centro de uma estrela, descendo à terra e, pé ante pé, vendo camadas de pessoas se desenrolando para que ela passe em cima e não toque na sujeira da terra, na água podre, no cheiro de vômito e fumaça dos corpos que se espalhava morro abaixo. Madonna, senhora dos homens, mulher do mundo. Aos poucos, Madonna se afasta. Ela sente o odor nojento da realidade, sobe em sua estrela e, aos poucos, some na escuridão do espaço sideral.

Maria está sem roupa. Está suja, sozinha num quarto de motel qualquer. Não lembra como veio parar lá. Sente um gosto estranho na boca. Sua vagina dói. Há sangue e porra nela e nos lençóis. Uma vergonha combinada com medo a invadem e a sufocam de tal maneira que vomita longamente no banheiro.

Ela se veste e sai. Anda sob o manto tímido das trevas que cedem lugar à luz. Não quer que ninguém a veja assim. O que sua mãe diria? E Tinhozinho? Puta que pariu, tava muito fodida. Fodida, fodida, fodida! (Fodidona!). Trava a garganta, mas lágrimas ainda escorrem.

O sol já se encontra em seu local, olhando de cima, gritando acusações incindindo seus raios nela. Encontra o ponto de ônibus e se senta. (Madonona!). Só ela, uma idiota, gorda, burra, burra! A rua está deserta. Escuta o som de um carro em alta velocidade. O veículo entra cantando na rua e para ao seu lado. Os jovens que nasceram do lado certo, dos prédios logo à frente do seu morro, saem e a encaram. Maluco, mais que porra é essa? Olha a roupa dessa puta aí!

Puta é o caralho! Isso aqui é roupa de Madonna!

Ela não sabe porque falou aquilo, mas falou. Os garotos do mundo que ela só conhece da telinha que embala suas noites, riem alto e falam o que ela considera ser o que todos sabem. Madonona!

Ela fecha aos olhos e, após ser arrastada para a rua pelos cabelos, só ouviu gritos de Puta! e Madonona! Não poderia se lembrar de mais nada, pois, após os primeiros chutes na cara, desmaiou.
Texto: Daniel Russel Ribas
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Imagem vencedora do 7º Encontro foi mote para os textos apresentados no 8º Encontro, tendo o texto acima sido o mais votado.

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