sexta-feira, 2 de julho de 2010

A mais terrível história de horror

              Banhas por todos os lados. Pele sobrando, com incontáveis reentrâncias. Enormes olheiras. Olhos loucos e profundos. Ancas assustadoramente gigantescas. Cabelo cheirando a Neutrox. Este é o monstro que vem aterrorizando minha vida.

Tudo começou quando fui comprar uma bala.


- Me dá uma bala, tia, por favor.
Seus olhos fundos se arregalaram e se fixaram em mim. Repeti: “me dá uma bala, por favor?”
- Pra você eu dou tudo.
- Ok, tia, mas eu só quero uma bala mesmo.
- Pode levar, pra você é de graça.
Achei a reação dela muito estranha, tive medo, mas não tinha como evitar reencontros, afinal, ela trabalhava em frente ao meu colégio. Parei de comprar qualquer coisa com ela, mas quase diariamente, logo depois que eu atravessava o portão da escola, ela se postava na minha frente e perguntava em tom grave (o único tom em que ela parecia saber falar): “quer uma bala?”. Eu respondia que não e seguia meu caminho. Isso durou até o fim do ano letivo. Fiz, então, vestibular e, quando saía da faculdade, no primeiro dia de aula, lá estava ela na porta: “quer uma bala?”. Tive calafrios, sequer respondi e fui para casa. Contudo, dia após dia estava ela na porta da minha universidade, me oferecendo bala, durante cinco anos.


Me formei em Direito, em seguida estudei por três anos e logrei aprovação num concurso para promotor de justiça. Graças a Deus, apesar do castrador estudo, foram anos felizes sem ter que aturar aquele ser horripilante. E, depois, mais felicidade ainda. Um ótimo salário, saúde, juventude, incontáveis mulheres. Numa sexta-feira, Carlinha ficou de me ligar para sairmos. Carlinha era uma mulher especial. Eu havia até dado para ela meu telefone fixo, que atendi feliz, esperando ouvir aquela voz doce ao fundo, perguntando “quer uma bala?”, digo, perguntando a que horas nos encontraríamos, mas infelizmente minhas expectativas se frustraram e a mesma voz sinistra, que me perseguia desde os tempos de colégio, me fez a malfadada pergunta.
- Como você conseguiu meu telefone? Me esquece! – respondi.
- Telelistas ponto net.
- Ah, maldição, será que ninguém mais tem privacidade nesse mundo!?
- Não quer uma bala?
- Não, não quero bala, nem sua nem de ninguém. Você me fez detestar bala!
- Posso ir aí levar uma pra você.
- Você tá maluca!? Acabo de dizer que detesto bala.


- Sinto tanta falta de te encontrar... Me lembro quando era um menininho, saindo assustado da escola, como quem corre do bicho papão... – mesmo querendo falar docemente, sua voz era grave e macabra – Na faculdade, mais maduro, parecia ter se tornado indiferente depois do susto do primeiro encontro. Após de formado, nada. Nunca mais quis saber de mim. Eu, que te acompanho desde garoto.
- Eu nunca quis saber de você, sua bruxa! Por que faz isso comigo? Some da minha vida!
- Mas... antes disso, eu preciso te dizer uma coisa...
- Fala e some.
- Eu te amo.
- Tá, agora tchau.
Bati o telefone, mas ele tocou segundos depois. Pensei se deveria atendê-lo. Poderia ser a Carlinha.
- Alô?
- Eu disse que te amo, você tem que respeitar meus sentimentos, ao menos me dar uma resposta.
- Some.
Desliguei novamente o telefone, que voltou a tocar. Não atendi, nem nessa, nem nas vinte e duas vezes seguintes. Liguei, então, para Carlinha do meu celular, e marcamos de nos encontrar.
Naquela noite brochei. Estava preocupado. E se a louca descobrisse meu endereço? Se ela tiver o mínimo de know how de investigação ou resolver pesquisar o assunto, não é difícil descobrir, até porque meu apartamento é comprado e está no meu nome. Me abri com Carlinha, que fez uma proposta surpreendente:
- Vem morar comigo.
Diante de tão assustador convite voltei para casa o mais rápido que pude. Minha tenaz perseguidora tinha um amor platônico por mim. Já Carlinha estava em vias de me encoleirar, se aproveitando do meu pavor. Sai de reto! Fiquei tão tenso com a mera possibilidade de viver com uma mulher e perder minha libertina liberdade que minha garganta ficou travada e irritou. Não tive dúvida, comprei uma Benalet. Entre a bala e coleira, fico com aquela.



Texto: Renato Amado
Imagens: Diego Kaeli

4 comentários:

  1. Diego,

    Impossível melhor ilustração para esse texto. Parabéns e obrigado!

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  2. guilherme preger6 de julho de 2010 09:56

    ótimas msm as ilustrações de diego kl. cada bala é um veneno até a última bala, fálica e mortal. e no txt do renato, será q a assombrosa vendedora de bala não foi uma preparação para a vida sexual do garoto? não há bala grátis, já diria um prêmio nobel...

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  3. Poxa, vocês estão cada vez melhores.
    Essa interação de balas no meio do texto, a bala que mata do Te Amo e as doces balas do veneno de morango, anis, menta que fazem viver...
    Gostei da mistura efetiva e literal. Assim o CLP dá passos para "unir 'algumas' imagens a mil palavras".

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