segunda-feira, 19 de julho de 2010

Trilho


Imagem por Marcos Sêmola.

Na cidade onde Marília nasceu não existiam problemas.

Às quartas-feiras os pais de Marília não a buscavam na escola, e ela voltava para casa por um caminho florido e cheio de borboletas.

Aos domingos ela corria por um descampado dançando as músicas que ouvia na rádio de seu pai. Suas bonecas geralmente a acompanhavam de bom grado, vez por outra ensinando um novo passo aprendido nas altas rodas vienenses.

Um dia, o trem chegou à cidade.

Na cidade onde Marília cresceu passava um trem de carga.

A fumaça era negra e Marília ria, porque eram como pequenas nuvens que nunca chovem, mas que somem para dentro de seu peito.

Às quintas-feiras ela voltava pelo caminho deserto cortado pelos trilhos do trem. Gostava de se deitar nos trilhos, sentir a vibração aumentando, o ruído tomando seu estômago, a morte assobiando lentamente, se aproximando sem qualquer surpresa. Na última hora – não tão última assim – se levantava e pulava para o mato, rindo de si própria.

Com o tempo, o caminho não tinha mais flores, ou borboletas, ou plantas, ou bonecas, ou músicas, ou pais, ou chuva, ou peito.

Com o tempo não houve nem mais trem.

Só Marília. Marília e sua vida e seus trabalhos e seus maridos e seus filhos e seus dias e suas novelas e seus problemas e suas perdas e suas dores e seus anos.

Na cidade onde Marília envelheceu só havia silêncio.

E o buraco deixado por tudo o que se foi trazia uma vibração ao estômago de Marília. Com o tempo, Marília voltou a ouvir um ruído. “É o trem”, pensou. E todo domingo voltava à velha linha de trem e se deitava nos trilhos, sentindo o assobio da morte cada vez mais forte e cada vez mais real.

Na cidade onde Marília morreu não existiam problemas.

Texto por Saulo Aride.

2 comentários:

  1. post emocionante, a imagem fantástica do sêmola em sua clareza de limpidez, o sol estrelado antes como uma ferida e o trem cortando a imagem, como corta a vida e a fantasia de marília. o irreversível de nossa história de vida q, no entanto, pode ser contada e recontada pela imaginação, mais real e ofuscante do q a luz solar. adorei, o clp está cada vez melhor, mais surpreendente nos dando doses diárias de emoção. valeu!

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