domingo, 15 de agosto de 2010

Modelo de Perfeição



Correr, correr, correr cinco, dez, quinze quilômetros. Todo dia, todo dia. Preciso manter a forma, me manter na forma que moldaram para as mulheres deste século pós tudo. Alface, cenoura e água. No almoço e no jantar. Água, muita água, por dentro e por fora. Para hidratar, três a quatro litros pelo menos. Para exercitar, nadar muito numa piscina olímpica pra lá e pra cá, pra lá e pra cá até ficar com as pernas perfeitas, duras, sem celulite, sem pelancas, pernas fortes, com os músculos da panturrilha bem marcados. Pernas que abrem e fecham. Nadar, nadar, nadar...

Sol não, que sol faz mal pra pele e pra razão. A pele resseca, descasca, dá bolha, dá câncer, um problema! O sol faz a gente pensar que pode ser livre, correr na praia, tomar chopp à vontade e mais um monte de coisas que não cabem na minha vida. O sol faz é a gente perder a razão.

Sal faz mal pra pressão, pros rins, pro paladar. É, pro paladar, porque se você se habitua a comer por prazer, vai gostar e aí vai engordar mais cedo ou mais tarde.

Felicidade engorda e você nunca mais vai me chamar de gorda, Reinaldo. Ah, mas não vai mesmo.

Se você tivesse me chamado de vulgar, imatura, safada, barraqueira, tudo bem, seriam bons motivos pra me abandonar, porque estas são características imutáveis, fruto de uma herança genética e coisa e tal. Mas me largar porque eu era gorda? Logo a única coisa que eu poderia mudar? Isso é sacanagem, e eu vou te zucrinar até você perceber que eu mudei. Mudei pra melhor. E você perdeu, maluco!

Mas minha mente não se ocupa mais desse assunto. Esteira é o melhor lugar pra não deixar a mente se ocupar com o que não tem importância para o corpo. Tenho que contar os passos, tenho que ver quantos quilômetros estou fazendo por hora, tenho que prestar atenção no marcador das calorias, quero todas elas queimadinhas da silva. Vou ficar inteira, ô se vou! A Lucrécia só foi Lucrécia até emagrecer, fazer a escova definitiva, colocar silicone nos peitos e botox na cara. Agora é Lu. E eu quero ser a Dô, porque Dorotéia vai ser a puta que te pariu, Reinaldo.

É um desafio e eu adoro desafios. O espelho me mostra os resultados. Linda, gostosa, com tudo em cima. Trepar consome mais calorias do que ficar chorando o abandono daquele desgraçado. Trepar, trepar, trepar, entre uma esteira e uma série de musculação, trepar, trepar, trepar, entre um copo d’água e uma cenoura ralada. Com o professor, com a instrutora, com todos os colegas, com a faxineira. Trepar sempre pra manter a pele jovem e o brilho no olhar. Reinaldo, tu me paga!

Cintura, barriga tanquinho, bundão e peitão. Vai ser gostosa assim lá longe! E ainda tem mulher que sonha ser mãe e estragar tudo! Pneuzinho, flacidez, muxiba murcha dentro do sutiã com bojo de espuma, eu, hein! Tô fora! E pensar que quase deixei o filho do Reinaldo vir. Mas ele nem reconheceu meu esforço. Viado!

Fumar é bom pra tirar a fome. Tira o fôlego, é verdade, mas isso eu resolvo com uns comprimidos. Antes, era o guaraná em pó, mas agora que estou perto da perfeição, preciso de umas coisas mais fortes, mais potentes, sabe? É bom porque também acaba tirando o sono e aí sobra mais tempo pra malhar, malhar, malhar. É bom também porque me dá uma fissura, uma doideira, uma vontade de socar alguém. E não adianta ninguém querer me convencer de que bomba mata, droga mata, porque eu já morri por dentro. E, agora, Reinaldo, meu corpinho vai é te assombrar! Vem abdominal, que eu traço! Sou bicicleta, spining, supino, ergométrica, remo seco, trampolim, barra. Ele me paga, ô se paga!

É prazer, não é sacrifício, que eu odeio essa palavra. Não pode chocolate, não pode batata frita, não pode pão doce, nem de sal, nem brioche, nem croissant, pão nenhum. Não pode refrigerante, não pode cerveja, não pode vinho nem bebida alcoólica nenhuma. Corta-se tudo e vai ter que dar resultado, porque senão vou é cortar os pulsos, depois de ter cortado você da minha vida, Reinaldo.



Imagem: Thainan Castro.

Texto: Maria Emília Algebaile



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Acima estão a obra eleita no oitavo encontro, com o texto eleito para ela no nono encontro. Para o décimo encontro, próximo dia 25, na mesma Baratos da Ribeiro, a imagem mote para os textos é a abaixo, de Fernanda Franco:





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