quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Monstro


Na verdade, as coisas não começaram tão do nada assim, doutora. Tinha tudo pra ser um dia normal, sabe? Eu e o Hugo tínhamos transado na noite anterior e, como sempre, foi muito bom. Daí fez sol nesse final de semana, e decidimos ir à praia. É engraçado porque a gente sempre vai pra Ipanema, mas dessa vez, ele propôs de a gente ir pra Copacabana, até porque ele podia visitar a tia dele depois. Confesso que gostei da idéia porque Copacabana está sempre ali e a gente nunca vai. Mas então. Tudo ia muito bem. A gente alugou duas espriguiçadeiras, comprou aquele mate de galão, comprou uns biscoitos Globo também, enfim, tudo na mais perfeita coerência, tudo normal, muito normal. Fomos até a água umas duas vezes, juntos; deixamos um casal tomando conta das nossas coisas. Teve uma outra vez que eu fui até a água, mas aí eu fui sozinha. Não sei porquê, mas eu fui sozinha. E aí, doutora, foi isso. Eu não lembro de mais nada do que aconteceu depois. Minha mãe me disse que eu me afoguei, mas eu não lembro. Não lembro de quando eu estava no mar, não lembro de terem vindo me socorrer. A única coisa que eu lembro é que teve uma hora que eu acordei e estava tudo girando, girando muito. E foi aí que eu vi, doutora: era ele e não era. Era o Hugo, doutora, ele estava com uma garrafa d’água na mão, e gritava tanto, doutora, como gritava. E ele tinha uma cara desfigurada, distorcida, ameaçava jogar aquela garrafa d’água em cima de mim como se fosse uma arma e não parava de gritar, doutora, era um monstro, isso sim, o que eu vi naquela hora foi um monstro, ai, não gosto nem de lembrar porque eu o vejo todas as noites nos meus piores pesadelos, doutora, todas as noites me assombrando, eu só sei que não quero vê-lo nunca mais, doutora, nunca mais, nunca mais!

Imagem: Marcos Sêmola.
Texto: Igor Dias

3 comentários:

  1. gostei muito da foto expressiva do semola, para mim é a própria imagem de uma alegria desmedida, um êxtase absoluto. o igor fez o txt sobre o aspecto monstruoso desta alegria desmedida. talvez, vendo de outro modo, o problema fosse da mulher msm, afinal ela queria um dia normal entre outros. talvez o casamento, ou o namoro suponham a normalidade e obscureçam o lado escandaloso de uma alegria súbita mas não compartilhada. mas copacabana é o bairro do excesso! é nesta ambiguidade de perspectiva (o problema está no marido ou na mulher?) q faz o interesse do conto super bem escrito do igor.

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  2. Excelente é pouco... adorei!!!!

    Vai ver o pretexto caiu como uma luva para a tal mulher não querer mais ver o tal rapaz... isso divulgado, deve ter muita gente torcendo pro namorado, marido ou coitado virar um monstro desses relatados e muito bem fotografado...kkkk

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