quarta-feira, 4 de agosto de 2010

New York


Ali, sentado no banco do carro, limpando o painel, como mais um motorista sem muitas coisas na cabeça além de preocupações triviais como pagar as contas do mês ou o resultado da última partida da NBL* , estava um dos homens mais poderosos da América. Ele me esperava, como um leão aguarda a leoa chegar com a caça. Em minutos, eu lhe entregaria o milionário mais gente boa que já conheci, o dono da Dress & Co. que, segundo ele, era um importante agente da CIA que andava na sua cola.

Renault era chofer do embaixador do Canadá. Por alguma razão incerta, ele conseguia cartas de trânsito para lá. Segundo ouvi, o embaixador era apaixonado por ele que, numa posição ativa, o satisfazia sempre que solicitado. Bastava, portanto, convencer Renault a lhe dar uma carta de trânsito para o Canadá e de lá escapar para onde quisesse.

Eu precisava cair fora o mais rápido possível. Além de descendente de mexicano, meu passado de militância esquerdista e pro legalização das drogas me condenava. Me lembro, ainda jovem, em passeatas pró-Clinton; depois, contra o governo Clinton. Em seguida anti-Bush, pró-Obama, anti-Obama e por aí vai. Não, não há qualquer falta de senso nas minhas manifestações políticas. Até poucos anos atrás eu costumava dizer que faltava coerência aos democratas eleitos, mas hoje, descolado historicamente dos fatos, percebo que talvez realmente não houvesse espaço para que qualquer presidente fizesse um movimento que fosse realmente contra a maré autoritária e conservadora que começara lá atrás.

Com origem no trauma criado pela guerra civil, o americano, sobretudo o sulista, tomou pânico de ver seu estilo de vida novamente destruído. Dessa forma, tudo passou a ser uma ameaça. Primeiro, o comunismo, depois, mais grave, pois vinha de dentro, corroendo as entranhas do sistema como um verme, os hippies. Resposta: Richard Nixon, seu inicial fortalecimento da Guerra do Vietnã e sua desvairada luta contra as drogas. Não muito tempo depois tivemos Ronald Reagan, seguido pelo Bush pai, depois o da estagiária e por aí vai. Com o olhar histórico, podemos ver que, mesmo com pequenos períodos de distensão, existia uma tendência reacionária de aumento do controle e do autoritarismo. O não fechamento da base de Guantánamo durante o governo Obama foi a pá de cal nas minhas esperanças de uma América realmente livre.

Paralelamente a isso, a América do Sul seguia em sentido oposto. Liderados por Hugo Chaves, diversos países do continente deram uma guinada à esquerda. Tínhamos, entretanto, um forte quartel general no continente: a Colômbia. Mas ela estava como Israel: uma preposta dos Estados Unidos, cercada por nações hostis. É claro que ia dar merda. E deu.

Quando as tropas venezuelanas marcharam Colômbia adentro, primeiro ajudamos com poderio bélico, fornecendo mísseis balísticos. Contudo, à medida que percebíamos que o exército venezuelano era mais preparado do que o imaginado, aumentávamos a ajuda, enviando homens, barcos e aviões para colaborar com a logística. Agimos assim até que a capital foi cercada pelos inimigos. Temendo que em poucos dias ocorresse o tão decantado pelo já provecto Chaves Nuevo Bogotazo, enviamos tropas e armamento pesado, ou seja, entramos de verdade na guerra. Bombardeamos pesadamente o Exército Bolivariano, fazendo-os recuar Amazônia adentro. Nossa atitude não foi nada bem vista pelos países vizinhos à região conflagrada. Temendo pela sua autodeterminação e pela autonomia da região, Equador e Bolívia, que ameaçavam a Colômbia, mas cientes de seu baixo poderia bélico evitavam entrar na Guerra, declararam, imediatamente, aliança ao Exército Bolivariano. O Paraguai, embora reticente, também se juntou à aliança, assim como a Argentina. No entanto, o que todos esperavam, era a palavra de quem poderia decidir a guerra: afinal, o que falaria a nova potência do sul, o Brasil?

Historicamente pacífico, o povo brasileiro não pensava em entrar em guerra, medida impopular entre a maioria silenciosa. Movimentos organizados de esquerda, entretanto, pressionavam o governo, que mantinha uma postura conciliadora, insistindo numa composição entre os países envolvidos. Contudo, esse tipo de posição só funciona quando os tempos não se de extremismo. Chega um momento em que não é mais possível apertar as mãos de um e de outro, é necessário aliar-se a um lado, conseqüentemente declarando guerra ao outro. Mas o Brasil mantinha seu discurso a favor da paz, falava em diplomacia, o que, àquela altura, soava ridículo. Aos poucos, outros países de menor importância foram se somando à Aliança Bolivariana. Após alguns meses, apenas Brasil e Chile não estavam na guerra. Ambos os países passaram a ser pesadamente pressionados. Demonstravam uma postura simpática à Aliança, mas nitidamente preferiam cuidar de questões internas a engajar-se numa guerra. Apenas quando as forças norte-americanas conseguiram expulsar os venezuelanos da Colômbia e já adentravam o território daquele país é que decidiram participar com plena força. A idéia de ver os americanos invadindo um país vizinho dobrou a opinião pública dos países reticentes. Agora éramos nós e Colômbia contra toda a América do Sul. “América do Sul Unida contra o Imperialismo!” diziam os cartazes de Assunção, Buenos Aires, Caracas, Brasília, e das outras capitais sul-americanas. É evidente que a chapa esquentou começou a nos fritar, principalmente depois do que ficou conhecido como Segunda Crise dos Mísseis.

A Venezuela, sigilosamente, transportou diversos mísseis para Cuba, que embora lançasse calorosos discursos contra as forças yankees, parecia preferir se ocupar em arrumar uma forma de - apesar do bloqueio americano - aumentar a ração diária dos seus cidadãos a se engajar numa guerra. Quando nos demos conta, contudo, potentes mísseis venezuelanos, lançados de Cuba, despencavam sobre instalações militares na Flórida.

Embora nós adoremos fazer guerra, ela é sempre lá, nunca cá. Quando bombas caíram sobre nosso território, a histeria foi generalizada e ocorreu o de praxe ao nos vemos ameaçados: um político de ultra-direita, pousando de salvador da pátria, subiu ao poder e, em nome da segurança nacional, impôs os maiores pacotes de restrições a direitos individuais da história do país.

O árabe foi substituído pelo latino como vilão da vez. Vale lembrar que foi mais ou menos nessa época que o petróleo do Oriente Médio começou a dar sinais de que em algumas décadas minguaria, ao passo que o Brasil recém se tornara membro da OPEP e a produção venezuelana seguia muito bem, obrigado. Eu, descendente de mexicanos, passei a ser seguidamente revistado nas diversas blitz montadas em qualquer horário nas ruas de Nova York. Por envolvimento com atividades suspeitas, que nunca soube quais foram, passei cento e vinte dias preso. Sofri tortura. O combate às drogas, inclusive à maconha, considerada a droga dos mexicanos, se intensificou. A fronteira com o México foi praticamente fechada. Bares passaram a proibir a entrada de latinos. Trabalho para nós, só se fosse subemprego. Nossa situação se assemelhava à do negro norte-americano da primeira metade do século XX, mas não tínhamos um Luther King.

Latinos e descendentes migravam aos milhares para o Canadá. Entretanto, nossos vizinhos do norte passaram a exigir visto para americanos, justamente para negá-lo aos de origem da latina. O México, então, se tornou uma importante rota de fuga. Já que era para ser pobre, que fosse sem preconceito e achaques gratuitos. Contudo, em meio a uma escalada autoritária no México, os narco-guerrilheiros, que já ganhavam força desde o início dos anos dez, deram um golpe e tomaram o poder. Como resposta, fechamos a fronteira nos dois sentidos, sob o argumento – pano para toda manga - da segurança nacional. Mas o que o governo queria era manter os latinos presos no país, para nos massacrar. Eles sabiam que, se fôssemos para a América Latina, nos tornaríamos uma força rival.

Logo surgiram boatos de execuções em massa de latinos nos lotados presídios. Isso tudo acontecendo num país que, por campanha oficial, nos últimos anos se auto-referia como América Vitoriosa, logo sagazmente apelidada de América de Vicky**.

Com incontáveis latinos e descendentes querendo deixar o país, o preço das passagens aéreas subiu, como uma natural conseqüência do aumento da demanda. Não bastasse isso, o governo fez uma lei que determinava uma triagem de passageiros, pois poderiam ser perigosos agentes da Aliança Bolivariana querendo escapar do país impunemente após terem recolhido as informações de que precisavam. Com isso, as portas se fecharam por completo para os latinos. Ao menos para quem não ouvira falar em Renault.

Conheci Renault num dos poucos lugares ainda democráticos de Nova York, o “Ricky`s Café”. O Ricky`s é um lugar de difícil compreensão, freqüentado por hispânicos, intelectuais de esquerda e, estranhamente, autoridades das mais conservadoras. Talvez por respeito às exigências do dono Ricky, carismático e querido pela maioria, além de politicamente neutro, cada um respeita o espaço do outro e atritos, embora inevitavelmente ocorram neste barril de pólvora, são raros.

No Ricky`s, Renault sondava latinos interessados em sair do país. Com sua influência junto ao embaixador canadense, conseguia carta de trânsito para quem quisesse. Do Canadá, um contato dele colocava as pessoas num esquema de um navio de refugiados, que partia rumo a Marrocos. Em troca, o refugiado deveria lhe pagar o que pedisse. Algumas vezes dinheiro, noutras, favores. Foi isto o que ele me exigiu.

Renault queria que eu atraísse Ferrari para dentro de seu carro. Ferrari era o rico dono de uma famosa grife, a Dress & Co., com lojas nas principais ruas e shoppings de Manhattan. Eu gostava dele. Embora milionário e sofisticado, era de uma simpatia genuína. Todavia, segundo a suspeita de Renault, seu desafeto era um agente da CIA que freqüentava o bar em busca de provas de suas negociações de cartas de trânsito, além de identificar elementos perigosos, isto é, hispânicos inconvenientes. O amante do embaixador citou o nome de algumas pessoas que freqüentavam o bar, mas estavam sumidas. Todos levados para presídios federais por obra do empresário da moda, me garantiu. Bastava eu, que tinha a confiança do ítalo-americano, atraí-lo para o carro do influente chofer, que estaria livre da infernal América de Vicky.

Passei duas noites em claro. Se sempre fui um homem incapaz de prejudicar o próximo, por outro lado pensava em minha jovem esposa, uma venezuelana-americana cheia de sonhos. A situação estava cada vez pior. A repressão aumentava. Eram dezenas, talvez centenas de latinos presos diariamente sob acusação de estarem a serviço da Aliança Bolivariana. E os rumores de execuções nos presídios aumentavam, pois eles não pareciam ficar mais lotados. Como não havia notícias de libertações, a conclusão lógica...

- Você vai aceitar! – ordenou minha esposa. Dormi, então.

No dia seguinte encontrei Renault e disse que topava o acordo. Poucos dias depois marquei de almoçar com o ricaço. Encontraria com ele na sua loja da Quinta Avenida. Na saída, diria que estava com um motorista de fachada, pois, sabe como é, atualmente um latino tem que ao menos aparentar ter dinheiro. Ao entrar, lhe apontaria um revólver e Renault dirigiria para um lugar ermo, onde ocorreria a execução.

Quando saímos, vi o homem que garantiria minha saída da América distraidamente verificando a poeira do painel do carro, como quem esperasse o patrão sair de uma reunião. Ferrari conversava distraidamente. Ele era simpático, desarmado, não tinha nenhuma pinta de agente repressor. Ao contrário, me parecia uma pessoa tolerante e aberta. Nunca havíamos conversado política, assunto só cochichado entre barbas no Ricky`s. Como levar alguém que até prova em contrário era inocente à morte? Acovardei-me, dei meia volta e fomos a pé a um restaurante próximo. Deixamos Renault limpando o painel. Enquanto almoçava, percebi que minha ex-vítima tinha tendências de esquerda. Me parecia mais um aliado do que um inimigo. Talvez até tivesse algum contato para me levar embora. Conversávamos amenidades, quando meu telefone tocou:

- Resolve logo isso.
- Não vai dar.
- O Renault está aqui em casa.
- Como?!?
- Ele tem parentes que enriqueceram em Casablanca fornecendo a refugiados americanos tudo que eles precisam ao chegar. Falou que eu posso me casar com ele e ter vida de esposa de marajá na área nobre de Casablanca. Meu bem, eu vou pra Marrocos. Cabe a você decidir: contigo ou com Renault.

Desliguei o telefone. Minha mão foi ao terno, alisava a pistola. Convidei Ferrari a me acompanhar até minha casa para um vinho. Ele disse que precisava voltar ao trabalho. Eu insisti, disse que trataríamos de assunto de fundamental importância, sigilo e urgência. Entramos num táxi e fomos. Minha mão coçando o gatilho. Assim que entramos em casa, atirei duas vezes: uma em Renault, outra em minha esposa, aquela vadia safada. Ferrari ficou tenso e se encolheu. Contei para ele que sabia da sua ligação com a CIA, do que Renault planejara, e que em troca de ter salvado a sua vida ele deveria arrumar um meio de me tirar do país. Mas garantiu-me, mesmo sob tortura, que era mesmo apenas um empresário com tendências de esquerda.

Fui condenado por crime passional, o que atenuou minha pena. Ferrari me deu uma força ao não se apresentar como testemunha, permitindo que eu fosse preso como criminoso comum, junto aos negros. Isso me dá esperança de escapar de uma execução sumária. O embaixador do Canadá foi substituído e Ricky passou o bar a Ferrari, para assumir um cargo no Ministério da Defesa.
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* N.T.: abreviação de National Baseball League, a principal liga de baseball dos Estados Unidos.
** N.T.: no original, Vicky America, de pronúncia semelhante a Vichy América, em alusão à França de Vichy, estabelecida pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. A palavra Vicky é ordinariamente usada como apelido para o nome Victória.



Imagem: Bruno do Amaral.
Texto: Renato Amado

3 comentários:

  1. uau, um thriller geopolítico no clp! valeu, renato, tem q ser filmado. e o bruno amaral com a classe de sempre!

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  2. Bruno e Renato, que dupla! :) A elegância de Bruno em sua foto e a fértil imaginação, cada vez mais madura, de Renato no seu texto. Excelente combinação, cada vez melhor!

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