domingo, 22 de agosto de 2010

Novas Memórias


Imagem Rudy Trindade

Saí cambaleante, me esgueirando pelo corrimão. Mamãe sempre dizia: não importa o que tenha acontecido, erga a cabeça e siga em frente. Apoiada nos muros, no caminho até em casa, os postes da rua oscilando entre o aceso e o apagado, ainda havia zumbido na cabeça e eu ouvia as palavras dele “o facão está dentro da gaveta esquerda, por favor”. Em fragmentos, as imagens me acompanhavam, seguiam ao meu lado – de mãos dadas, aquelas imagens e eu.

Eu assistia sóbria ao seu rosto transtornado sem lágrimas – nem numa hora dessas ele chora. “Foi bom enquanto durou, filha querida, obrigado pela faca” – como se pudesse ser diferente, logo eu, que sempre o obedeci. A sala da casa dele era sangue. Os três degraus da escada na saída eram sangue. O asfalto e as calçadas eram sangue - da sala da casa dele até minha cama.

Acordei sem despertador e retomei meu dia anterior. Naquele fim de noite, lembrei, tinha ido olhar a lua no jardim. Abri um vinho, a Ana passou lá em casa, conversamos até a madrugada. Fomos dormir às gargalhadas, rindo dos filhos da vizinha que brincavam de estourar as próprias bolhas de sabão.


“Não quero me confirmar no que vivi. Na confirmação de mim, eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.” – Clarice Lispector.



Texto Maíra Fernandes de Melo

3 comentários:

  1. esta fantástica imagem do rudy me fez pensar q no clp tem estado ausente o erotismo. msm q seja um erotismo partido e fragmentado como este, q insere na imagem as visões especulares do desejo dilacerado (aliás, está faltando um braço na manequim ou é trompe d'oeil?). este dilaceramento está no pequeno conto da maíra, com este corte súbito entre o agonizante e o cotidiano banal. como dois mundos paralelos e incomensuráveis. e q ironia da clarice dizer q não tinha capacidade para outro mundo. seus contos são sempre de outro mundo...

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