quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Pegação



Carente e cheia de disposição, ela se lançou à caça por volta das nove. E durante a noite, foi se desgastando aos poucos.
Começou com um giro pelos bares do Leblon. Não conseguindo nada, tentou uma boate em Ipanema, onde deixou um dos braços. O outro, se perdeu em uma festa paga, na Lagoa.
Em algumas boates, do Posto Seis ao Leme, deixou as pernas.
Num forró, no Catete, ficou o seu tronco.
O seu pescoço foi deixado num sambão, na Lapa.
Nariz e olhos ficaram numa rave na Barra.
Ao amanhecer, sua boca subiu no balcão de um muquifo, na Zona Oeste e pediu a última cerveja.
“Bem, pelo menos eu aprendi me valorizar mais.”, disse ao Paraíba que a serviu.
Neste momento, um homem bonitão e charmoso, se aproximou e disse:
“Posso lhe pagar outra cerveja, boneca?”

Música: Gilson Beck.
Conto: Júlio Corrêa.

2 comentários:

  1. ótimo! um conto quase poema pela fragmentação do txt, cortado como um corpo seccionado por sua carência e por seu desejo. e a trilha de vozes desmembradas como um acompanhamento perfeito. gostei da mulher dizendo q "aprendeu a se valorizar mais". ironia ou pura verdade? estamos sempre despejando partes de nossos corpos, ao longo das noites e dos dias, e talvez nos depurando mais, na vitória ou no fracasso...

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