sábado, 7 de agosto de 2010

PONTA-CABEÇA


Imagem de Fabiano Gummo


A lógica que serve pros outros não serve pra mim. Na minha cabeça, tartarugas são pássaro. Animosidades são algodão. Gentes são borboleta.

O certo é sempre o duvidoso. O incomum é sempre o pressuposto. Como aquele casal de crianças na nesga de lâmpada. Ou aqueles outros meninos, de mãos dadas no shopping. Oi, com licença, vocês não me conhecem, eu queria só que vocês não perdessem a coragem ao longo da vida...

Como a barricada de ferro na entrada do morro. Oi, com licença, vocês, traficantes de arma na mão, eu queria só pedir para entrar, não vou levar nada, só vou encontrar uns amigos.

De cabeça pra baixo, as asas da gaivota parecem uma mola. De cabeça pra baixo, o Cristo Redentor parece um candelabro. Até o ravióli de brie à mesa é que nem um jogo de bafo-bafo, as mãos em concha, quem conseguir controlar o ar leva!

Deitada no sofá, os calcanhares pra cima, sinto o tapete felpudo, que faz cafuné no cabelo. O topatudopordinheiro topatudopor um dia na praça, umas horas de riso frouxo e filosofias vãs, um vinho com cavalos e carroças e pedras e céu cinzento.

O aquieagora vira nuncaeprasempre, avidaeamorte vira terramolhadaecaveira. O paunumburaco vira plenitudeesímbolo. De cabeça pra baixo tudo vira o que não é. Ou o que é em meia-metade. O que poderia ser – mas é tudo tão de cabeça pra cima que ninguém tem olhos de ver.

As minhas lágrimas, que deveriam descer, sobem, evaporam e viram nuvens, que se condensam e viram chuva, que vem molhar abobrinhas, que me alegram as papilas.

De cabeça pra baixo, me mato e me vivo. De cabeça pra baixo me sou.

Mas é só o meu sangue que corre ao contrário. No mais, é corpo ereto, linha reta e pés no chão.

Por isso, às vezes, sinto vontade de chorar.



Texto de Maíra Fernandes de Melo

6 comentários:

  1. maírapoética! e fabiano sempregummo, com suas imagens foradelugar, pontacabeça, meioestranhas. bombombom,um instantedepoesia, meus caros, é o q valeavida!

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