quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Sobre Pão, Lembrança e Digressão


3 da manhã. Noite fria. Um sanduiche na mão de um solitário. O que se faz quando se sabe que acabou as orgias? Todas as orgias? Chega o momento em que as noites de délirios se tornam um punhado de lembranças. A.N. tinha lábios com a leveza das pétalas das rosas. Nunca encontrara nada parecido. Cada beijo assemelhava-se a mergulhos em sonhos. I.V. forneceu o beijo mais intenso e apaixonado, sentados atrás de um banco de carro. James Taylor cantando ao fundo, como que pedindo calma onde não podia haver. A intensidade era interrompida pelos risos do anacrônico do momento. Os olhos azuis cinzentos da loura rebrilhando felicidade. Minutos eternos, com uma vida para lembrá-los. Já a morena L.G. possuia o sexo como dom e arte. Ela era capaz das esculturas mais desconcertantes na cama. Sabia conduzir, ser conduzida, aceitar e partilhar o êxtase. Tudo era tão simples que atingia o estágio máximo da pureza.

Sim... Sim...

3 e 15 da madrugada. Cada uma delas tomou cinco minutos de recordações. O sanduiche estava frio.

- Não tenha medo!

A voz feminina parecia saída do nada. Olhou em torno e a viu. Cabelos castanhos, rosto iridiscente, olhar entre o aconchegante e destemido. Guardava uma elegância quase portenha naquela noite fria. Era bonita. Muito bonita. Ele engoliu em seco.

-Posso? - disse ela, apontando para a cadeira vazia da mesa. Ele menou a cabeça, de modo afirmativo, com a lentidão da hipnose.

-Obrigada! Esse sanduiche parece bom! Morde ele! Isso! Agora mastigue! Muito bem! Engula! Gostoso, né? Vai comendo!

Ela era tudo que ele sempre desejou. O que estava fazendo ali?

-Você vai acabar seu sanduiche! Vai se levantar! E vai ligar para ela!

De forma teatral, conduziu, com um dedo, uma antiga ficha de telefone na direção dele. Ele mostrou o smartphone. Ela riu e deu um peteleco na ficha, que girou até cessar o movimento no exato meio da mesa. A gargalhada era súbita e gostosa.

-Nem pede, que eu não conto como faço isso!

Deu um tom de paródia de bruxa sacana na voz.

-A mulher tem que ter os seus mistérios! Uhuhuhuuuuu!!!! Que medo! Que medo!

Ele ia falar, mas ela cortou.

-Ela pretendia passar a madrugada chorando, por sua causa! Mas vai ficar aliviada quando descobrir que você é apenas um cretino que se esconde atrás de sanduiches às três da madrugada!

Ele se sentiu tonto. Tão bonita! Tanta beleza não parecia real!

Ela olhou para o singelo relógio cartier.

- 3 e meia. Dê quinze minutos e então ligue para pobre coitada!

Com uma graça inevitável, se ergueu e se dirigiu até a porta. Olhou para ele. O castanho dos olhos faiscou como brasa. Apontou o indicador direito como uma lâmina rebrilhante.

-E se você me falar novamente em lábios parecidos com pétalas de rosa, eu te arrebento a cara!

Deu um riso quase infantil e foi embora, como um amor impossível.

Ele olhou para o relógio e pediu outro sanduiche. Em quinze minutos seria degustado. Em seguida ele sairia dali, na direção dos dias, e nunca mais ia achar que já tinha vivido o bastante. Nunca se vive o bastante.



Imagem: Fabz (versão artes visuais de Fabiano Vianna).
Texto: Ricardo Soneto - convidado. - perfil

3 comentários:

  1. boa estréia do soneto, com as fantasmagorias amorosas e sexuais da simples madrugada de um homem. q imagem do fabz vianna!

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  2. uma delícia de conto e título com a carismática palavra pão. mostarda, cachecol e charme às 3 da manhã.

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