terça-feira, 24 de agosto de 2010

Torcida Pulp Fla ou Um Post Tosco e Despretensioso para Almas Desocupadas



Zumbis! Zumbis por todos os lados! Estava assim Copacabana quando saí de casa para ir trabalhar. O porteiro, já zumbizado, tentou me atacar, mas pulei a grade e consegui escapar. Que susto! Fui pro ponto de ônibus, mas não consegui atravessar a Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Os motoristas haviam virado zumbis e avançavam os sinais. Com freqüência batiam nos cruzamentos, mas ninguém morria, afinal, já eram todos defuntos. Alguns transeuntes me atacavam, e eu tinha que usar uma ginga de corpo para não ser apanhado. Ginga pra cá, ginga pra lá, maluco, que a zumbizada tá pressão. Isso ainda vira funk.

Voltei para meu apê para pegar a bicicleta. Como os motoristas dos ônibus e provavelmente os maquinistas do metrô também haviam virado zumbis, a bicicleta era o único meio de transporte viável. Ia dar um rolé pela cidade para descobrir as proporções do fenômeno. Talvez fosse só em Copacabana, ou então era um flashback do ácido da véspera e se eu desse uma gastada de bike logo ia passar.

Resolvo pegar o Corte, seguir pela Borges de Medeiros para depois cair no Humaitá e, se não visse mais zumbis, chegar ao trabalho, no Centro, então fui de terno e gravata.

Para todos os lados havia zumbis. Um deles se colocou na minha frente, na ciclovia. Desviei, mas ele pulou em cima de mim e me agarrou. Tentou me dar uma mordida, mas cuspi no olho dele. O zumbi recuou desesperado, se debatendo. Ao que parece, eles têm problema com baba humana, o que nunca tinha sido retratado por Hollywood. Nunca levei fé na verossimilhança dos filmes desses caras. Sigo pedalando e dando algumas cusparadas pelo caminho. Espirro é como uma granada de fragmentação. Vejo uma capivara. Vou atrás dela, pulo nela, imobilizo a bicha. Amarro ela com uma corda que surge na minha cintura graças às tosquisses que a estética pulp nos permite. Cheiro o animal, pois tenho alergia a capivara. Com isso, estou bem mais protegido contra ataques de mortos-vivos. Eis que surgem, todavia, três zumbis, um deles com um copo d`água, outro com um pregador e o terceiro com um Allegra. Colo minhas narinas na Joana, a capivara, inalo com toda a força. O espirro vem vindo... ele está chegando... os três zumbis também... o que chegará antes, o espirro ou os zumbis? No próximo capítulo.

Próximo capítulo: ... o que chegará antes, o espirro ou os zumbis? O primeiro me alcança e fecha meu nariz com o pregador. Abro a boca para espirrar, o segundo joga o Allegra dentro dela, mas eis que o espirro vem com violência tal que arremessa o anti-alérgico a 17,89 m, igualando o recorde de João do Pulo, mas ainda aquém de Jardel Gregório. O espirro é violento e prolongado. Balanço a cabeça de um lado para o outro, com expressão de ódio, em slow motion e close. O processo é catártico. Ao terminar, os zumbis estão estirados no chão em agonia. Sigo de cabeça erguida e peito estufado (e de terno e gravata, lembre-se), mas a pé, pois um trombadinha-zumbi subtraíra minha bicicleta durante o replay do meu espirro em câmera lenta.

Vou pela ciclovia, que é próxima à lagoa, para mergulhar caso necessário. Havia poucos zumbis nadando. Passo pelo Clube Monte Líbano e vejo mais um zumbi a se aproximar. Ele me parece familiar. Olho bem. Ele continua caminhando na minha direção, seu andar é mais plácido e humano que o dos demais. Mas vem tão decidido na minha direção que me dá mais medo que os outros. Até que o reconheço: Arthur Antunes Coimbra, vulgo Zico, o Galinho de Quintino. Ele vem, como não poderia deixar de ser, trajando o Manto Sagrado. Ecoa na minha mente: “dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe eôôôôô; dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe eôôôôô; dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe eôôôôô, Mengão do meu coração”. Tento parar de escrever a música da Magnética, retomar o foco para a história, mas é difícil de resistir, a paixão é grande, “Mengo, estou sempre contigo, somos uma nação, não importa onde esteja, sempre estarei contigo. Com meu manto sagrado e a bandeira na mão, o Maraca é nosso, vai começar a festa”, vide primeira citação para complementação do texto. E lá vem chegando. A espera é difícil. A espera é difícil. Zico segue pelo meio, passa por um, passa pelo segundo zumbi e continua pelo meio da ciclovia até chegar a mim. Dói o meu coração por fazer isso com o maior ídolo da humanidade, mas não tenho opção, o instinto de preservação é mais forte, então meto a napa na Joana novamente e dou aquela espirrada no Galinho de Quintino.

- Que isso, amigo?
- Ué, você não é zumbi?
- Tô parecendo?
- Desculpe.
- Que tal soltar essa capivara na lagoa e deixar ela em paz. Vou te arrumar um jeito de não ser atacado pelos zumbis.
- Que bom, o que preciso fazer?
- Vai na Gávea. Na Fla-butique estão distribuindo gratuitamente camisas do Flamengo.
- Legal, vou pegar uma assim que acabar a crise dos zumbis.
- Recomendo pegar agora, pois eles temem quem veste esse manto e não atacam. O manto é sagrado e eles são criaturas demoníacas.
- Cruz deve funcionar também.
- Não, porque isso depende da religião de cada um. A camisa do Flamengo é a única coisa objetivamente sagrada. Quem não concorda está lutando contra fatos. Qualquer modelo funciona contra os mortos-vivos, mas o de 81 é o mais poderoso.
- Mas Zico, você tá com a cara cheia de sulcos, parecem até digitais, além de estar bem pálido. Lembra um zumbi.
- Nada, isso é besteira. É que o Marcelo Damm, autor da imagem em que o Renato Amado se inspirou pra escrever esse texto, exagerou no Photoshop.
- Ah, claro.
- Vai lá, garoto, na Fla-butique.
- Só uma coisinha antes. Me dá um autógrafo?
- Você tem caneta?
- Nem caneta, nem pincel. Anota aqui como mensagem de texto no meu celular e salva como rascunho.

Zuno para a sede do Clube de Regatas Flamengo, cafungando de tempos em tempos a irrequieta capivara. Olhos vermelhos, garganta coçando, nariz escorrendo e dez espirros por minuto. Não havia zumbi páreo para mim, mas estava duro agüentar isso tudo. Queria logo a camisa do Flamengo para me livrar da maldita bendita capivara.

O clube está um oásis. Todos bem vestidos de vermelho e preto e nenhum zumbi. Os porteiros todos envergam o manto de 81, mantendo os mortos-vivos a uma distância segura. Quando chego à Fla-butique, contudo, o caos. Centenas de pessoas se matando pelas últimas camisas. Ao final, só sobra uma camisa para três pessoas: eu, um marmanjo de uns quarenta e poucos e uma criancinha. Eu e o marmanjo caímos matando na criança para nos livrarmos rapidamente de um concorrente. Assim que ela desmaia meu oponente desfere um soco que, graças à minha esquiva, acerta o ar. Respondo à altura, com outro soco no vazio, mas ele segura meu braço e o torce. Nesse momento, penso duas coisas: por que eu não voltei para casa, onde tenho cinco camisas do Flamengo?; vou jogar a Joana nele. Com o braço livre eu segurava a Joana. Arremesso a roedora em cima dele que, assustado, solta meu braço. Num movimento rápido e literalmente impossível, mas que na liberdade do mundo fictício pode se realizar, solto as amarras da Joana, que senta em cima dele e desfere vários socos na sua cara, alternando entre pata direita e esquerda. Enquanto isso, visto o último manto retro 81 e, armado com uma foice para decapitações, me dirijo a São Januário, para exercer meu altruísmo. Lá há zumbis em excesso, afinal, como explicado por Zico, a cruz (de malta) é ineficaz.

Imagem: Marcelo Damm.
Texto: Renato Amado.

7 comentários:

  1. (O_o)
    Pasmo.
    Atônito.
    Embasbacado.

    Sensacional!

    Valeu meu bom. E feliz aniversário!!!

    E ATÉ AMANHÃ NO ENCONTRO DO CANETA!!!

    ResponderExcluir
  2. hahaha, ótimo. Vai virar curta?

    ResponderExcluir
  3. nada a ver com o surrealismo nem literatura do absurdo. é antes literatura absurdete, metalinguagem da gozação, escrita q ri de si mesma e fazendo isso quebra sua pseudo-seriedade. enfim, o renato está brincando com a forma, quanto ao conteúdo... será um prenúncio da previsível derrocada flamenguista neste ano miserabilis de 2010? a torcida rubronegra q se pronuncie...

    ResponderExcluir
  4. Viva a mulambada bem vestida!

    Obrigado, Damm, vc deixou quicando para eu escrever um texto sobre o Mais Querido do Brasil (e do mundo). Há tempos queria fazer isso.

    Preger, valeu o comentário. Tirando a parte final, foi perfeito!

    Saudações rubro-negras e literárias!

    ResponderExcluir
  5. Re,que pirada heim?
    Gostei.
    Mengoo!

    ResponderExcluir
  6. Excelente! Mistura de absurdo com realidade.

    Um absurdo atribuir sacralidade a um pano de chão, realidade mostrar que nem para Zumbi serve o uniforme de presidiário rubro-negro.

    De qualquer forma, o texto é muito bom. Parabéns!
    Saudações vascaínas

    ResponderExcluir