terça-feira, 14 de setembro de 2010

Blue


Tenho uma séria deformidade: meu nariz tem um formato acústico, com furos numa das laterais. Quando respiro, se não tapo qualquer das minhas narinas, ele emite um som em ré menor. Dependendo de quais as narinas são tapadas você tem um sol, um lá ou o que você queira da escala pentatônica. Amigos amantes de música dizem que não tenho uma deformidade, mas um dom, que várias pessoas dariam tudo para ser uma flauta ambulante. Mas não consigo ver isso. Você sabe o que é nascer ouvindo ré menor? A cada instante da sua vida, não importa o que esteja fazendo, seja indo ao banheiro, fazendo amor, escrevendo um conto, desenhando, lendo ou jogando Mario Kart, estar sempre escutando uma nota musical? Por isso, odeio música. Sobretudo as que têm ré menor.

Mas recebi uma proposta interessante: entrar para uma banda, na qualidade de instrumento. Eu ficaria parado respirando e o sujeito tapando variados buracos de minha narina. Ok, na verdade não seria somente um instrumento, mas também um músico, pois imprimiria o ritmo através da minha respiração, acelerando-a, fazendo-a entrecortada... parece até que se for diafragmática faz diferença. Eles pretendem contratar uma professora de yoga para me ensinar técnicas de respiração, e me dar aulas de música. Nada disso me atrai, pois a perspectiva de ter que lidar com música me dá calafrios. Contudo, me ofereceram um salário pelo serviço. Bem, já que passo vinte e quatro horas diárias suportando o ruído do meu nariz, melhor fazê-lo ganhando unzinho por isso.

Por um tempo, tudo caminhou relativamente bem na banda. Dávamos muitos shows e a grana aumentava, pois além do meu fixo, ganhava uma parte do cachê. Digo razoavelmente porque por mais que o salário fosse bom, não dava para estar realmente satisfeito num trabalho de que não gostava. Mas a coisa desandou mesmo quando o cidadão que tocava o meu nariz me pediu para também soprá-lo, pois um sopro teria uma força muito maior do que qualquer inalada que eu pudesse dar. Evidentemente, brequei na hora a pretensão do sujeito e isso gerou um mal estar no grupo, pois todos achavam que a qualidade musical era o que importava. Fiz uma contraproposta, então, para que chamassem uma gostosa tipo morena do Tchan para soprar meu nariz, que eu aceitaria. Alguns se opuseram, mas após algum debate, o proposto foi acatado.
Algumas se apresentaram como candidatas interessadas. Os critérios eram, nessa ordem: hálito, tamanho do peito, beleza do rosto, qualidade da bunda, da coxa, talento musical, simpatia. Ainda durante os testes descobri uma coisa: ter alguém soprando ar para dentro de suas narinas é um dos maiores prazeres que o ser humano pode ter.

Contratada a escolhida, os ensaios e shows passaram a ser extremamente prazerosos. O único problema é que numa das músicas havia um solo que eu não conseguia terminar, porque eu tinha um orgasmo no meio. Após novo debate concluiu-se que apenas a contratação de um gorda de mau hálito poderia garantir que o solo chegasse até o final. Efetivamente a tática funcionou, mas entrei em depressão. Você sabe o que é a depressão?

Algo que te arrasta para a cama. Não há sentido em nada. Viver para quê? O fato gerador da sua depressão te mostra que nada faz sentido. É tudo monótono, descolorido, sem beleza ou poesia. Você fica para baixo, fica down, fica blue... e vai caindo... despencando... mesmo sem gostar de música  começa a ouvir os blues mais melancólicos... e, se tem um instrumento como parte de sua anatomia, quando se dá conta está um Andy Mckee, aprofundando a dor. Assim, com esse sentimento de completa tristeza, estou aqui recebendo este prêmio de melhor músico de blues do ano. Por mais que não veja qualquer sentido nele ou em suas bundas sentadas nas confortáveis poltronas desta platéia, obrigado.

Imagem: Diego Kaeli
Texto: Renato Amado

7 comentários:

  1. GENIAL!!!! Muiiiiiito bom mesmo!!!! Valeu!
    Abração

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  2. gostei, fiquei com vontade de soprar as narinas... fiquei triste no final!!!

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  3. Boa imagem, boas ideias, bom texto. Faltou o som! Essa dupla é imbatível. Adorei!

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  4. Excelente a imagem do Diego. O texto foi escrito às pressas e tinha certeza de ter feito algo aquém da imagem. Fico feliz com a boa recepção.

    Abraços.

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  5. Renato,
    Amei o texto,original e bem escrito.
    A imagem tb é ótima e o conjunto da obra casou perfeitamente.
    Parabéns!

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  6. Cara, muito bom!!! Um realismo fantástico muito bem escrito e, o melhor de tudo, divertidíssimo! =D

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