sábado, 18 de setembro de 2010

CASA

Sua casa era bonita. Um pouco estranha, mas bonita. Pensando bem, era que nem ele. Ele também era um pouco estranho, mas bonito... A casa não era muito grande, mas era bem dividida. Tinha um bom janelão, que fazia respirar melhor aquele micro espaço. Na parede oposta à janela, um painel com fotografias. Eu sempre paro pra olhar fotografias. Gosto de ver foto de qualquer um, até de gente que eu não conheço. Ele abriu um vinho e ficou me explicando. O primeiro carnaval, o aniversário de cinco anos, a formatura da escola, os amigos do churrasco. Trinta e sete fotografias, até que ele me deixou sozinha na sala e foi preparar o macarrão. E eu pensando em tudo o que ficou de fora das fotos, em quem tava com a câmera, no que se passava na cabeça da pessoa fotografada. Fui vendo foto por foto, até bater o olho em uma um pouco maior, preta e branca, antiga. A árvore genealógica.

À esquerda, a tia-avó, com um sorriso no rosto. Quatro dias antes, ela tinha ficado viúva. No centro, um senhor sentado em uma cadeira de rodas. O bisavô. Um patriarca escroto que não respeitava ninguém e sempre mandou e desmandou na família toda. Ao seu lado, em pé, um casal de braços dados. A moça de vestido florido, o rapaz de terno e gravata borboleta roxa. Os avós. Parecendo felizes. Mal sabia a avó – e não sabe até hoje – que seu marido sempre nutriu uma paixão irrefreável pela irmã, a viúva do outro lado da foto, separada dela apenas pelo sogro e a cadeira de rodas. Mal sabia ela que, na noite em que o cunhado morreu, foi nos braços do seu marido que a viúva se consolou.

No canto direito da foto, duas meninas. A mais nova, de vestido branco e terço na mão. Um sorriso enorme, um olhar perdido. Alguns anos depois, com onze anos de idade, ela se mataria com a arma do pai, num dia quente de verão, a despeito do sol que fazia lá fora. Ao lado da menina que se suicidou, uma outra, mais ruiva e mais velha, na mão uma boneca de pano com o rosto retalhado. Essa era a mãe. A família, que se fez unida para a foto, mas que nunca tinha sido unida mesmo, se desmantelaria de vez. A árvore genealógica.

Ele voltou da cozinha, o macarrão ficou pronto. Eu teria dito tudo isso pra ele, tudo o que eu tinha visto naquela foto em preto e branco quase sépia esmaecida no painel. Mas ele me olhou e sorriu, a garrafa de vinho na mão, e eu não consegui falar mais nada.



Texto: Maíra Fernandes de Melo





Imagem: Pilar Domingo

3 comentários:

  1. impressionante como a maira traça a genealogia de uma família inteira em apenas 4 pequenos parágrafos. um show de concisão certeira, se detendo apenas no essencial, enquanto a moça (?) espera o homem com seu macarrão, o vinho e outras surpresas. e depois de ter conhecido a casa cheia de reminiscencias da pilar na urca, acredito q ela vai gostar deste bonito txt q combinou com sua imagem densa, sintética e sugestiva...

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  2. Na real, é a imagem que combinou com o texto e foi feita para ele. Rodada invertida.

    Parabéns à dupla!

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