terça-feira, 28 de setembro de 2010

A Cela

“Eu havia acabado de chegar na cidade, sabe? E quando você chega em uma cidade estranha, logo pensa em encontrar um lugar para se divertir. Ninguém quer ficar sozinho num quarto de hotel numa sexta à noite! E eu não queria ficar naquele quarto, por onde milhares de caras como eu deviam ter passado. Eu podia sentir o cheiro deles no lençol. A angústia produz um tipo diferente de suor. É um cheiro que dá nojo e me deixa pra baixo, sei lá!

Bem, na verdade, aquele quarto de hotel parecia uma enorme cela de paredes brancas. È isso! E eu senti a necessidade de fugir dali o mais rápido o possível.

Por isso, eu fui para a rua. Fui seguindo por aquela graaaaande avenida. Não era uma cidade feia e nem bonita, não estava frio e nem calor. Na verdade, não havia nada demais ali. Eu e aquela cidade estabelecemos um trato. Eu não queria saber nada sobre ela e ela também não saberia nada de mim, sabe como é? Não havia nada ali que me fizesse mal. Mas também nada que me fizesse bem. E nada que me fizesse supor que iria ouvir o que iria ouvir.

Onde eu estava? Ah, na graaaaande avenida! E eu fui andando pela graaaande avenida até que vi aquele homem de meia idade, sentado numa saída de metrô. Era um cara bem apessoado, bem vestido. Não parecia ser um...você sabe, um vagabundo. E eu devia ter desconfiado. Devia saber que um sujeito daqueles não estaria ali, naquele lugar numa noite de sexta, se não fosse alguém de quem eu deveria me manter afastado. De quem qualquer um deveria se manter afastado.
Pois não sei como, alguma força que não é desse mundo me fez me aproximar daquele sujeito. E eu disse:

“Escute, amigo. Estou procurando por um lugar para tomar um drinque., um lugar com alguma diversão.”

Então, o cara me olhou de uma maneira que não devemos olhar para ninguém. Dentro dos meus olhos, me intimidando. Depois, ele abriu um sorriso estranho e disse:

“Ah, é só dobrar a primeira à direita e você vai encontrar A Cela.”

Não pense você que me ofendi. Não! Eu estava apenas surpreso e cheguei até a abrir um desses sorrisos de gente boa e inocente.

“Cela?”, eu disse.

E o cara continuou sorrindo, quase se desculpando:

“A Cela é um bar. O pessoal o chama assim porque tem gente que vai à primeira vez e não sai mais de lá.”

Aí, o indivíduo soltou uma gargalhada gostosa, uma gargalhada de amigo de infância, ao ouvir uma piada. Uma gargalhada que me fez sentir bem. Durante alguns segundos, cheguei a pensar que havia conhecido um bom sujeito, cheguei até a pensar em convidá-lo para um drinque. Mas aí, ele voltou a me olhar nos olhos daquele jeito que não se deve olhar e completou:

“Você encontrará muitas pessoas bacanas lá, muito gentis. Certamente alguém vai lhe pagar um drinque, os garçons vão querer saber o seu nome e passarão a chamá-lo pelo nome que você lhes der. A música é alta e o ambiente é muito animado. Mas não o bastante para lhe incomodar. A bebida é sempre servida com sorrisos e a comida é ótima. Você realmente vai se sentir bem lá dentro.”

Não sei por que, mas tive a impressão de que havia um tom acusador naquelas palavras. E como se estivesse em meio a um flagrante, apressei-me a me justificar:

“Olha, amigo. Eu só estou querendo me divertir um pouco.”

Mas ele ignorou o que eu disse e continuou:

“Você vai se sentir tão bem que voltará amanhã. E depois de amanhã também. E depois, depois, depois. O seu café da manhã passará a ser na Cela. E você também passará a almoçar e jantar lá. E não conseguirá dormir sem antes tomar um último drinque. Com o tempo, você não vai mais suportar a vida aqui fora. Tudo lhe parecerá rude e frio demais. E a essa altura você desejará viver lá para sempre. Mas aí você vai conhecer o único defeito da Cela. É que ela tem sempre que fechar, largando você no meio da madrugada fria, sem ter para onde ir.”

Nesse momento, então, o sujeito ameaçou ir embora e eu segurei o seu braço. Se eu tivesse o mínimo de sensatez, eu o deixaria ir. Qualquer um o deixaria ir. Mas o impedi e com uma aflição imprudente, eu falei, quase gritei:

“Amigo, eu só não queria ficar trancado no meu hotel numa noite de sexta. Não quero passar essa noite sozinho, eu só queria ver gente, me divertir.”

Então, durante alguns segundos, ele me olhou. O olhar com o qual não se deve olhar ninguém. Depois, falou como se olhasse para um cuspe na sarjeta.

“Até que você aprenda a ficar sozinho, o seu lugar é A Cela. Vá e junte-se aos seus.”

Então, ele me deu as costas e se foi pela looooonga avenida. Me deixou ali com os meus medos. E com aquele súbito desejo de sair daquela cidade. Aquela cidade não era boa. Ela não cumpriu o nosso acordo. Ela agora sabia de mim e eu não queria saber dela, mas agora sabia da Cela.

Um lado da minha mente me dizia que aquele homem estava certo, o que só aumentou o meu pânico. Passei a procurar um táxi que me tirasse daquela cidade ruim. Aí, um lado da minha mente me disse que qualquer lugar seria ruim, que não havia para onde fugir. Comecei a suar,aquele tipo de suor, cujo o cheiro me dá nojo e me deixa triste. E eu tinha que sair dali. Aquela cidade não era boa. Você sabe...para um cara como eu.”



Texto: Julio Correa
Imagem: Marcelo Damm, inspirado no texto

2 comentários:

  1. muito bons, txt e imagem. difícil sair da caverna se a caverna é q é o bom , é q é divertida.
    a imagem do damm é duca...

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