quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Não Aprendi Dizer Adeus (sic)

Quando conheci Marin, me impressionei com o brilho cínico de seus minúsculos olhos. Estava em Tokyo há apenas dois dias, e tudo o que tinha visto eram as modernas japonesas de cabelos loiros e cor-de-rosa, recém-saídas de qualquer fetiche pseudo-oriental. Nada de gueixas carinhosas ou de meninas criadas de acordo com a rígida submissão nipônica. Nada de ninjas misteriosas e sensuais buscando arrastar mais uma vítima ocidental para seu tatame de amor fatal. Nada disso.

Talvez este seja o motivo do charme que vi em Marin. Charme que residia justamente na ausência de qualquer preocupação em ser charmosa, no desleixo em preencher a meia dúzia de arquétipos que elaborei de japonesas. Marin não era exatamente bonita nem, definitivamente, sensual. Na verdade, Marin tinha chegado aos seus 20 anos sem ter dado um beijo na boca, o que me tornou voluntariamente seu primeiro homem e involuntariamente seu último.

Marin tentava beijar como as atrizes americanas dos filmes a que assistia com seu sofu. Assim, seu beijo era extremamente movimentado e plástico, embora muito sem saliva e completamente sem entrega. Quando pedi a ela que colocasse sua língua em minha boca, Marin riu, e em seguida colocou-a rija, contraída ao extremo, sem qualquer rebolado que fosse. Depois vim a descobrir, deslealmente, que as mulheres japonesas têm o beijo prejudicado pela ausência dos fonemas la, li, lu, le, lo e afins. Todas elas. Que Marin não me ouça.

Nossa primeira vez também me foi estranha, e mais ainda a ela. Marin tinha a boceta bastante pequena, vertical, ao contrário do mito, e não parecia ter qualquer vontade de demonstrar ou mesmo de sentir prazer. Pelo contrário, buscava o tempo todo a dor, contraindo-se ainda mais e gemendo não como quem goza, mas como quem agoniza. Por vezes chorava, por vezes sem lágrimas, e nunca consegui entender se alguma de nossas transas foi pelo menos agradável a ela.

A curiosidade matou o gato e, logo após, suicidou-se, como tudo no Japão. Desta forma, em 6 meses estava completamente saturado de Marin. Seu charme se esgotara, seu prazer me enchia de culpas, seu beijo misturado com peixe cru e wasabi me dava um pouco de ânsia após o jantar. Era hora de partir, e eu sabia, desde o início, que adeus era uma palavra complicada em japonês. Na realidade, não aprendi a dizer adeus, no sentido de “tenha uma boa vida”, “o problema não é você, sou eu” ou coisas do tipo. Sabia apenas falar um básico até logo, o que encheria Marin de esperanças de um retorno.

Assim, pensei em dizer algo romântico, mas que desse a idéia de partida. Dizer por escrito, uma vez que nunca teria coragem de gaguejar tais frases olhando para o brilho cínico dos olhos de Marin. No dia de minha despedida, gastei todo o meu melhor hiragana escrevendo “watashi wa Marin-san ga wasuremasen”, algo como “não te esquecerei, Marin”. Ficou lindo. Deixei a seu lado, me vesti e fui embora.

Japoneses não diferenciam presente de futuro. “Não te esquecerei” é exatamente igual a “não te esqueço”, e minha despedida se tornou a mais singela declaração de amor que uma nipônica recatada poderia receber. Três dias depois, Marin apareceu em minha casa, sorridente. Beijou meu rosto e me apresentou a seu pai, que me perguntou, num japonês sisudo, a data de nosso casamento.

Temos dois filhos cujos nomes não sei escrever ainda. Marin sofre cada vez mais em nossas escassas noites de sexo. Quando estou sozinho, penso em me matar, mas ainda não aprendi o modo certo de rasgar minha barriga com minha espada, e fazê-lo do modo errado condenaria a reputação de meu sobrenome por cinco gerações.
Pior de tudo: a culpa não é de Marin. Toda japonesa sofre no sexo. Comigo, pelo menos. Que Marin não me ouça.

Texto: Saulo Aride.
Imagem: Diego Kaeli, inspirada no texto.

3 comentários:

  1. ahahah, gostei desta mistura inusitada entre sofu e sifu. pelo jeito, o lula não faria sucesso no japão devido a dificuldades fonéticas. e "boceta vertical" (eu não sabia q existiam horizontais...) deve ser ginecologicamente interessante... só não entendi pq o olhar de marin era cínico... depois de uns posts emotivos e pungentes, o saulo fez um conto de ótimo humor e malícia. já o diego kl, como sempre insólito, com suas imagens metamórficas e inquietantes...

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  2. Espetacular a imagem para esse texto, Diego. A princípio soa surreal e onírica, mas contextualizada é plenamente compreensível, adequada, e linda.

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