domingo, 12 de setembro de 2010

Afrodisíaco




Parte 1 - O abismo da falta de foda

Eu sabia que se a gente não transasse logo, o relacionamento terminaria. É assim com todos os animais. O coito é parte principal de qualquer desenlace entre duas criaturas. Mas não uma simples troca de fluídos mecânica. Isto só ocorre em casos extremos, como reprodução da espécie ou aquela punheta no período de seca. Para que a mulher, qualquer mulher, queira ficar com um homem, tem que receber uma bem dada. Tem que sentir que sem aquele pau, não há razão para ir trabalhar no dia seguinte, sair para beber com as amigas ou passar horas no salão. É tudo uma artifício, a maneira feminina de retardar a foda para, chegada a hora mágica, se deixar levar para um universo paralelo, em que as leis da física não se aplicam e a gravidade bate forte para se anular em seguida, permitindo a leveza dos corpos. Ensinamentos do meu amigo Batista, um grande cara, um verdadeiro sábio das coisas da vida. Ele foi levado por um atropelamento enquanto seguia uma bela guria e esqueceu de olhar para o sinal. Viveu como morreu. Ou o contrário. Grande Batista, homem das filosofias que não se encontram em livros.
Falava para ele do meu caso com a Norminha. Ou melhor, o que ainda restava do meu caso com a Norminha. Não transávamos há duas semanas. Eu queria. Caramba, quase implorava! Mas Norminha estava distante. Ia direto para a casa dela, ao invés de vir para a minha quando largava do trabalho. Nas noites em que saíamos, chegava tão bêbada que caía no sofá ou na cama e só acordava no dia seguinte com uma ressaca sádica. Alguns dias, simplesmente não ligava. Estava sem alternativas. Batista, como sempre, deu um parecer preciso da situação:
- Tá procurando outro pau.
- Que é isso, Batista!
- Bicho, sério! Fêmea quando tá evitando o macho é porque tá em exposição na vitrine. Não termina porque não arruma outro e, na pior das hipóteses, você tá lá, com sua presença insignificante.
- Puta merda, então virei um plano B?
- Bicho, tá mais pra plano C. Plano B geralmente é o macho anterior que a trocou por outra. Elas vão lá, ligam para ele com uma conversinha mole e, quando menos se nota, é que nem aquele programa de rádio, Good Times.
- Tou fodido.
- Tá fodido.
- Porra, o que eu faço?
- Pega outra. Mulher no Rio de Janeiro é que nem resfriado, todo mundo pega e passa pro outro.
Mas não queria outra. Queria Norminha. Não porque a amasse ou alguma besteira do tipo. Para ser honesto, ela até andava chatinha antes disso. Mas, pô, é minha mulher! Não podia deixar que um malandro viesse do nada e a garota terminasse comigo por conta disso. Era muita humilhação! Ninguém pegaria mulher minha sem eu liberar antes! Plano C era o cara...
- ... lho! Se a vadia quer vazar, beleza. Mas não vai antes de eu terminar com ela. Não, senhor! Maluco, vou pegar essa mulher tão forte que, quando acabar, vai querer casar e tudo. Aí boto ela pra correr!
- Boa, garoto! Tenho orgulho de ser teu amigo!
Após alguns minutos de silêncio, Batista intuiu uma questão que me atormentava. Afinal, aparentemente, eu não estava mais na mesma forma de antes, mas, para concluir a missão, precisava estar melhor do que nunca. E este tipo de pressão, bicho, é muito ruim para uma tarefa como esta. Assim, como o bom camarada, ele foi discreto.
- Bicho, se tá faltando confiança, uma ajuda extra não desmerece o serviço.
- Sei não. Sou cardiopata e essas merdas podem me dar um infarto!
Mais uma vez, Batista utilizou de técnicas sutis de persuasão.
- Deixa de viadagem! Tá, não confia no comprimido azul, por que não tenta extrato de uma estrela-do-mar azul?
- Estrela-do-mar azul? Tá doido, cara?
- Não, eu li numa revista.
Então, ele me contou sobre a tal estrela-do-mar azul. Era um item encontrado no mar asiático; comida de baleias corcundas nanicas. Para evitar se tornaram uma versão de equinoderma de Jonas, algumas se grudam na lateral do mamífero. Logo, é comum encontrar dezenas delas quando os caçadores recolhem as baleias para o barco. Um líquido específico é retirado do ânus da estrela-do-mar. A partir daí, se forma o extrato que...
- ... é natural. Não tem contra indicações e ainda tem efeito por seis meses! É caro, mas, no total, vale a pena e não precisa ficar se preocupando por meio ano.
- Não sabia de nada disso.
- É. Tem algo a ver com a capacidade de regeneração dos braços...
No dia seguinte, fui à luta!

(Continua. Não percam a segunda parte: "A noite em que Norminha se liquifez")

Texto por Daniel Russell Ribas

Imagem por Pilar Domingo

9 comentários:

  1. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a Pilar pela imagem. Em seguida, me desculpar a ela pelo texto escroto. Tudo de bom, DRR

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  2. Ótimo! Muito bom e engraçado, com um diálogo bastante fluido. A continuação do pensamento em palavras. E a frase "mulher no Rio de Janeiro é que nem resfriado. Todo mundo pega e passa para o outro" nos dá 100% de garantia de umas boas risadas, estando desarmado.

    Abraços.

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  3. hahahahaha...
    Ótima imagem e texto comicamente inesperado.
    Beijinhos

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Estou rindo e ainda descobri alguma coisa sobre mulher que pode ser útil.

    :D

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  6. Hahaha. Esta saga está hilária man! Mete bronca na continuação. Adorei a descrição a respeito das baleias corcundas nanicas. Rsrsrs

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  7. Tirando os preconceitos que sempre vem em mente...

    Eu juro: morri de rir!!!!

    Ótimo!

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