sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Seres de transformação



Da ciência aos religiosos atributos, eu existo. Antes girino, agora conteúdo. Meu nome é humano. Do latim humanóide versus mil resoluções. Eu me confio. Por isso me digo tanto. Falo de mim em via pública e, nos arredores de casa, do apartamento, onde quer que eu me esconda, choro feito criança e sofro ao ver a indignidade na TV.
Nasci. De um espasmo de minha mãe também humana consumidora de frivolidades. Lembro de minha infância. Eu gostava de acreditar que homens e mulheres se multiplicavam assim como cães, aves e pássaros. Um dia, na missa, no sermão, Padre Serafim disse que criança deveria ter inocência. E logo descobri nas aulas de orientação sexual que inocência é um percurso curtíssimo até o absurdo que a gente vive. A gente se transforma de forma tão ligeira que mal se percebe. Mas, como sempre fui apegado a mim, decidi anotar minhas mutações.
Nasci criança.
Passei a infância desejando ser adulto. Durante a adolescência convalesci de tanto que queria ser maduro. E, à minha idade, 40 e muitas fumaças, desejo nunca ter nascido. Mas é mesmo muito preciso o tempo que tanto faz chacota de mim.
Porém, lembrar é perseguir o que é morto. Por isso não lembro. E, se lembro, caio em pranto.
Ainda me encontro em processo de transformação. Encontrei o amor. Aos 18. Era este o tempo. Eu homem em acordo transitório. E simplório. Amei de beijar a fêmea. E procriamos. Nossas crias são cópias fiéis de nossas caras humanas e derrotadas. Fásicos. Passarão pela infância desejando ser adultos. Na adolescência, sei que irão convalescer desejando ser maduros. E, quando chegarem à minha idade, 40 e outras fumaças, desejarão não ter nascido. Precisamente desta forma já sei da vida de meus filhos.
Minha mulher é o típico caso de ralo aspecto. Burra, feia, discreta e me serve. Ela me protege e é para isso que a busquei. Não se enganem vocês que acreditam que todo ato é de boa fé. Eu sou da espécie desmascarada de magro canalha e acredito em Deus quando preciso. E leio revistas em consultórios médicos. Tomo remédios. Durmo pouco, faço sexo, tenho pesadelos e sou chauvinista. Tomo banho demorado para fugir da vida. Tenho família e pouco me importo se meus familiares estão contentes ou se desabam de agonia. E acabo de comprar um carro do ano. Parcelado, equipado, moderno e isto é denominado existência. Não se enganem acreditando em maiores espetáculos, em desenhos animados ou contos de fadas. A gente nasce, cresce, contamina e morre todo dia. A doença da gente é humana. Esta que irriga coração e cérebro sem distinção. E ainda volto a ser criança. Ainda volto a ser quem não sou.

Animação: Johandson Rezende
Texto: Letícia Palmeira - perfil

6 comentários:

  1. "Ainda volto a ser quem não sou." (LP - ou Vinil?) :D

    Por que a gente sempre deseja ser quem não é? Mesmo quando não percebemos estamos lá. No lugar onde não chegamos. Quando desejamos ter mais dinheiro, ser mais felizes, ter outro carro do ano, mais meia dúzia de filhos, ter a grama do vizinho, o namorado da prima, o emprego do melhor amigo, estamos querendo ser "outro". Assim, esquecemos de viver e aproveitar aquilo que está ao nosso alcance.

    E vamos transformar imagens em palavras! ;)

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  2. "Eu sou da espécie desmascarada de magro canalha e acredito em Deus quando preciso. E leio revistas em consultórios médicos."

    Conheço essa espécie, fonte de pesquisa por anos. Uma coisa bem humana de se lidar.

    Excelente estreia por aqui!
    Beijo, Letícia.

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  3. maravilhosos txt e criação dos estreantes. as metamorfoses do eterno retorno da vida. Adorei: "A gente nasce, cresce, contamina e morre todo dia". Parabéns a ambos por esta surpresa de postagem.

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  4. muito bom o texto e animação é genial!

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  5. Este post me lembrou muito aquela música "As pessoas da sala de jantar", do movimento Tropicalista [eu nunca sei o nome do cantor ou da banda nessa horas]. Monte de gente por aí que só está preoucupada em "nascer e morrer"...

    Gostei muito da forma crua e sem véus com que a condição humana é exposta. E a junção do texto com a animação está uma verdadeira simbiose! =D

    E, ah, é seu texto de estréia, né? Seja bem-vinda, Letícia!

    Beijos,

    Igor

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