quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ansiedade

Imagem por Maria Matina.
Olhos que comem, comem os olhos, olhos comidos, olha o homem. Alguém passa lá em cima. Será ele que está de volta? Será o miserável que o jogou neste sujo poço? Ou será uma salvação, um transeunte despercebido que pode servir de seu socorro? Não sabe, só olha. O que pode fazer? Se sim, se for o miserável, e gritar por socorro, ele saberá então que não fez o trabalho por completo e poderá fazer algo para acabar com sua vida ali em baixo, mas e se não, e se for sim um estranho, alguém sem nenhuma responsabilidade por seu atual estado e com a capacidade de o ajudar, se não gritar, ali ainda continuará. Metade-metade de chances, ou talvez não. E se for um amigo do miserável? Ele simplesmente chamará o outro, e os dois acabarão o serviço. Pior, juntos acabarão muito mais rápido do que se fosse só um. Mas talvez seja realmente um estranho, porém pode ser um estranho rude, anti-social, que com ninguém se importa, e assim só faria por ignorar seus pedidos de ajuda. Logo, são muito menos que metade-metade suas chances de salvação, são irrisórias, está arruinado!
   Deve ficar quieto, assim ele logo vai embora e sua vida está salva. Salva? Mas assim não acabará por morrer neste poço? Neste pútrido poço, com sua perna ferida, aberta, infectada, a lentamente contaminar o seu sangue com aquela água suja. Não, não, pois pode morrer de fome primeiro. Sim, é uma verdade, pode durar ali alguns dias definhando, sobrevivendo unicamente daquela água suja e do limo nas paredes. Quem sabe até num momento de maior desespero, simplesmente coma a sua própria carne. Arranque com os dentes a carne da perna, ou do braço. Mesmo assim esta é a verdade, eventualmente não haverá mais opções a lhe satisfazer e morrerá ali de fome. Então, essa pode ser sua última chance de sair dali! Se grita e é ele, morre, e se não grita, também morre. Deve gritar, necessita gritar, vai gritar! Porém, e se aquele poço estiver num lugar movimentado e logo houverem muitas chances de sua salvação. Talvez agora seja ele, mas depois seja outro. Talvez ali seja o caminho para uma cidade, ou o trabalho de alguém, ou um parque onde amantes se encontram. Mas e se esperar e depois for ele de novo? Talvez more aqui por perto e faça constantemente esse trajeto. Talvez tenha nascido ali por perto, tenha vivido a vida toda na mesma casa e trabalhe também perto. Talvez seja enfim a única viva alma a passar por ali pelo todo sempre. Ahhh… podem haver muitos passantes, ou pode ser só ele. Se forem muitos, e ele não gritar, morrerá com sua salvação ao lado, mas se for ele, será morto imediatamente. Se espera, morre, se não espera, também morre. Ou talvez o exato oposto, quem pode dizer.
   
Mas e se o miserável se arrependeu? E se ele notou o ato vil que cometeu e agora está lá em cima a se torturar por suas ações. Talvez a única coisa que queira agora é uma chance de se redimir. Talvez esteja pensando em ajudar pessoas para compensar por seu crime. Talvez pense em simplesmente se entregar e passar o resto de sua vida na cadeia. Unir-se lá dentro a um culto religioso e escrever livros de como uma vida miserável o levou ao seu crime, e como a entidade cultuada por sua nova religião o levou a salvação. O pobrezinho deve estar horrível lá em cima! Talvez pense até em se matar se jogando no poço. Deve gritar rápido, antes que ele faça uma besteira! Além de morrer ali, morrerá ao lado do que o jogou. Ou pior, talvez morra com a queda dele sobre si. Mas se ele não o matar em sua queda, pelo menos terá mais carne para sobreviver. Sim, mas também o que ele quer é sair, não ter mais carne. Deve gritar, antes que ele se suicide! Mas e se estiver na verdade comemorando? E se tiver voltado a cena de seu crime por se sentir orgulhoso do que fez. Talvez esteja cozinhando um churrasco agora lá fora. Talvez tenha chamado a família e os amigos para comemorar no anonimato o seu grande triunfo. Ah.. idiota! Assim pode gritar, pedir ajuda, e todos saberão de seus crimes. Sua família ficará horrorizada, seus amigos revoltados, e todos o ajudarão a sair dali. Será rejeitado por todos que conhece, jogado na prisão e totalmente esquecido. Sim, acabará de uma forma terrível, exatamente o que ele merece! Gritando, condenará o miserável a um poço muito pior. Mas espere, talvez estejam todos mancomunados. Talvez sejam uma família de assassinos, ou talvez seja um churrasco de serial-killers! Serial-killers que jogam pessoas em poços e esperam elas morrerem. Ó… quem sabe os horrores que poderão fazer com ele, caso saibam que ainda está vivo. Talvez até o tirem dali, só para poderem o torturar mais, o estuprar, comer a sua carne. Então, se gritar, não só morrerá, como morrerá de uma forma muito pior que sequer pode imaginar. É melhor morrer de fome. Mas talvez esteja errado, e a salvação esteja lá fora. Uma morte horrível, ou a salvação, realmente não sabe.
  
  Não sabe, realmente não sabe o que fazer. Mas e se estiver louco? E se o vulto que viu lá em cima for só um produto de seu desespero? Talvez a infecção na ferida da perna já esteja lhe afetando a razão, ou quem sabe talvez tenha batido a cabeça quando caiu e agora esteja com seqüelas irreparáveis. Que destino, não só fadado a morrer em um poço, mas morrer também louco em um poço. Dessa forma, se gritar por socorro será só uma confirmação de sua maluquice. Um louco a gritar para vultos que não existem. Mesmo se haja realmente alguém lá em cima, o que não garante que após ser salvo, não acabe um mendigo, desorientado pelas ruas, gritando para vultos? É isso que quer para sua vida? Não, prefere morrer ali naquele poço enquanto todos ainda acreditam em sua sanidade. Mas talvez não esteja louco, e haja realmente alguém lá em cima, uma boa pessoa, esperando por sua salvação. Ah… talvez seja uma mulher, talvez seja o amor de sua vida! Seu grande amor, só esperando o seu grito de socorro para começarem uma bela vida juntos. Como será engraçado no futuro, quando contarem a seus netos como se conheceram. Vovó encontrou vovô num poço! Sim, que vida maravilhosa nos espera. Faremos tanta coisa juntos, apreciaremos a vida como nunca antes. Mas e se for uma mulher feia? Assimétrica, gorda, desdentada! Será obrigado a se entregar para ela por gratidão? E se o miserável for seu irmão, e agora vendo o amor de sua irmã, decida o manter vivo e o obrigar a casar com ela? Não, não pode aceitar isso. Não quer acabar com netos mutantes perguntando a vovó porque o vovô chora toda vez que se lembra de como se conheceram. Não, não vai se casar com o monstro que está lá em cima, querendo o seu amor. Pode gritar pelo seu verdadeiro amor, aquele que esperou por toda a sua vida, ou pode gritar para uma vida num casamento forçado e sofrido. O que fazer? O que fazer?
   
Pode ser realmente alguém lá em cima que nada espere em retorno. Sim, há pessoas assim no mundo, tem de haver! Talvez no máximo só espere alguma recompensa financeira. Nada tem ali, mas pode conseguir, logo isso não é um problema. Mas e se quiser imediatamente? O fará um escravo numa plantação de cana-de-açúcar, ou numa mina de carvão? Não, não, talvez possa ser compreensivo e o colocar para trabalhar num escritório com ar-condicionado. Quem sabe? Mas não, sair de um poço para virar um escravo, que destino! Não, não suporta, não quer nem morrer, nem ser comido, nem casar com um monstro, nem virar um escravo. Mas talvez seja salvo por um cão collie, ou case com a mulher de seus sonhos! Tem de gritar por socorro! É melhor agir que não agir, é melhor ver o futuro que se apagar na escuridão, é melhor construir as possibilidades que se afogar nas impossibilidades. Tem de gritar! Mas e se… E se… E decide não gritar.

Texto: Daniel Matos.

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Imagem vencedora do 10º Encontro, com texto vencedor do 11º Encontro, nela inspirada. No próximo encontro, quarta que vem, a fonte inspiradora será uma animação, de Johandson Rezende, que segue abaixo:

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