quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Cara de Paisagem



Sabe quando você fica com cara de paisagem? Não, não. Você não está entendendo. No meu caso foi diferente. Meu rosto realmente se transformou em paisagem. Montanhas com formas femininas, sol iluminando o horizonte. Aquela coisa toda. Cada dia uma paisagem diferente no espelho do banheiro. Lago, estrada, montanhas, floresta. O bom é que, nesta época, economizei lâmina de barbear. Porém gastei o dobro com exames. Fui ao psicólogo e ele chegou à conclusão que foi por causa das visitas. Os parentes da minha mulher foram passar uns dias conosco. Pessoal de Catanduvas. Putz, uns papos chatos que só vendo. Levaram a filharada. Casa virada em brinquedo e roupas. Colchões na sala. Verdadeiro caos. E eles são daqueles que curtem tirar um sarro. Estética da gracinha, sabe? Comédia stand-up no próprio lar. O problema é que eu era sempre o tema. As piadas giravam em torno das minhas manias. E minha mulher, claro, dava moral. Puta chatice do caralho. Todo mundo sabe do meu problema de T.O.C. Nunca foi segredo. E com esse tipo de coisa não se brinca. Só porque eu ficava reorganizando os objetos que eles tiravam do lugar. É automático! E como não tinha percebido que este foi o motivo de meu rosto ter modificado? Realmente! Desde sexta-feira que estou assim, com pôr-do-sol e colinas na cara. Desde o dia que as visitas chegaram. Bendito psicólogo. Nestas horas vale a pena pagar cem pilas por sessão. O doutor sugeriu que eu viajasse, evitasse o confronto. Mas isso ia acarretar um desconforto filha da puta lá em casa. Optei por rebater as piadas. Me transformei no chato, o rabugento. E eles foram ficando, incentivados pela minha esposa. Pesadelo. Já fazia sete dias. Eu não podia nem ir ao cinema para abstrair. O som de pássaros na minha cara de paisagem atrapalhava todo mundo. Não havia opção “mute”. Nem teatro ou show. Se batia vento, diversas folhas voavam de mim. E às vezes colegas do trabalho usavam o rio da minha cara para lavar a mão. Sim, eu era motivo de chacota no serviço também. Então acabei acostumando. Acho que tudo, com tempo, habitua. Num domingo, enquanto lia o jornal na padaria do bairro, vi nos classificados alguém procurando modelo vivo para aula de arte. Anotei o endereço e fui até lá. “Tenho cara de paisagem. Interessa?” E o pintor “Que fantástico! Precisávamos mesmo praticar natureza! Meus alunos vão adorar!” E comecei a receber duzentos pilas por hora. Foi muito bom reverter o quadro. Transformar meu problema em algo rentável. Ia todo dia ao ateliê do tal artista-plástico, lá em São Conrado. Os alunos adoraram a idéia. O único problema é que só dispunham de um dia para executar a obra. No outro dia, eu já aparecia com outro tipo de cena. Com a grana que juntei em um mês, viajei pra Parati. Minha mulher ficou em casa a contragosto. Brigamos. O pessoal voltou para Catanduvas. Mas enfim ela entendeu que eu teria que ir sozinho. Expliquei que precisava dar um tempo e relaxar. Peguei uma pousada no centro da cidadezinha. Fora de época da Flip, graças a Deus. No segundo dia, ao acordar, dei-me comigo mesmo no reflexo do espelho do banheiro. Olhos, boca, nariz. Tudo em seu devido lugar. Nunca achei que desejaria isso – ver a mesma face, usual, de todos os anos, na imagem do espelho.  Foi um alívio tremendo recuperar meu próprio rosto novamente. 

texto Fabiano Vianna
imagem Ana Muniz

6 comentários:

  1. Cara, que delírio! XD Ficou perfeito o realismo fantástico do conto, a concretização literal do conceito de "cara de paisagem".

    E a imagem [linda!] casa perfeitamente com a ideia do texto. Genial!

    ResponderExcluir
  2. hahahha. Tá muito divertido esse texto, Fabiano. Um surrealismo humorístico muito bom. É o típico texto que olho e penso: "como gostaria de ter escrito isso." Meus parabéns!

    E a Ana sempre mandando bem!

    ResponderExcluir
  3. AEEEEE! Obrigado caras! Que bom que vocês gostaram! Este conto foi totalmente fruto do CLP, porque o fato de ter o compromisso me fez escrevê-lo. Também inspirado pelo lindo desenho da Ana. É um grande incentivo! Como vocês, me surpreendi com esta história. Hehe. Fiquei imaginando as cenas, e lembrando de filmes surreais tipo "Quero ser John Malkovitch" ou "Deconstruindo Harry". Abração a todos!!

    ResponderExcluir
  4. Tá tarde pra comentar?
    Nossa, que texto incrível pra uma imagem... linda...? Não! Não expressa bem o suficiente... instigante!!! Parabéns pros dois!

    ResponderExcluir
  5. Concordo com o Damm, incrível texto Fabiano.
    Valeu pela parceria!
    "Agradicida" pelos comentários!

    ResponderExcluir