sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Em talos de flor

Quero amar cara de alma e corpo na mão. Amar doente morrendo de ressaca, agonizando clemente, fazendo simpatia pra dizer que tenho amor. Chamar curandeiro que me faça desistir e voltar a amar como marcha à ré de carro automático. Doente de amor e vadia. Fé torta de minha língua em pescoço de amor e amar de ferro, fogo e pontapé na rua quando o amor esfria. E se esfria, quero amar mais cara e veemente. Amor de idólatra, romana, esquecendo de mim e amando Deus, somente Deus, e amando tudo. Até as sujas e simplórias mãos. Amar de vagabundo dormindo no chão e rir tonta de mim mesma porque amar me faz rir e abrir flores e ler em voz alta cartão clichê que diz que ama. Me deixa amar mais cara o seu signo, sua voz e a
fome que tem de tanto procurar velas no cais. É tudo vazio e amor só há em mim porque sofro de amor e repudio padrão e não caio na boca grande que diz mal de mim. Eu amo imenso de corpo e talos de tudo quanto é flor que existe. Amo mais que mãe quando o filho vai embora dizendo que não volta e não olha pra trás. E você me perde porque não sabe que amor é doença boa que acomete de tristeza e crueldade tudo de um tempo só. Amor meu é copo cheio entornando água e relógio contando minuto que já passou. Amo largo em farto tempo e, se morre o amor primeiro, amo outros tantos mais.

Texto de Letícia Palmeira
Imagem de Fabiano Gummo

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