segunda-feira, 11 de outubro de 2010

In Focus

Fui a uma festa VIP inovadora. Era realizada num ambiente controlado, com algum tipo de tecnologia de última geração, quando você entrava isso ficava patente. Eu não sou muito chegado a esses eventos, muito menos a festa VIP, fui porque ganhei o convite super VIP de uma pessoa muito querida, e confesso que fiquei curioso. Fui pra ser VIP, ou melhor, super VIP, distinção que pra mim soava meio redundante, mas vá lá. Num lugar secreto, especial, exclusivo, essas babaquices todas. Tudo divulgado apenas algumas horas antes, coisa do creme do creme, da nata. Chegando lá, reparei que não havia curralzinho, com as prometidas subcastas, essas coisas. Fiquei meio cabreiro, modernoso demais o lance, todo mundo então era super VIP…

Mas logo reparei que a maior parte das pessoas estava fora de foco (!), e outras, em número bem menor, não. Mas como? Então era essa a última tecnologia que ele tinham implantado na entrada da bagaça! Um lance hiper controlado, você ganhava uma pulseira na entrada, todas da mesma cor, mas de fato havia uma que deixava você em foco, e outra que deixava você fora de foco! Quem era super VIP mesmo, muito mais VIP que os outros, ficava em foco, e quem não era tão VIP assim, ficava fora de foco! Pasmem, a divisão do futuro…

Fiquei meio catatônico, e demorei a ligar os pontos. Como falei, eu tinha ido com o convite VIP super VIP, a pessoa querida que tinha me convidado fez questão de frisar, e disse que eu podia ir sem medo, que eu não ia me incomodar. Ia ter conforto, e sem ter a sensação de estar isolado com um bando de babacas num curralzinho. Enigmas a parte, fui reparando que os super VIPs se distinguiam de maneira discreta, porque estavam todos misturados, e eram todos convidados. O que eu entendi depois de um tempo foi que, pra quem não era super VIP, todo mundo tava em foco, e pra quem era, quem não era tava fora de foco, e quem era tava em foco. Daí que quem não era super VIP não tinha nem consciência dessa divisão interna! E quem era, vivia uma cumplicidade silenciosa com seus pares, como uma seita secreta, superior, discretamente superior, só pra quem vê, só pra quem sabe…

Uma coisa de maluco, se eu contar ninguém acredita. Achei tão sórdido e perverso que enchi a lata e fiquei me deliciando com o delírio antropológico. Quem não era super VIP tava feliz que nem pinto no lixo, de estar ali, naquele lance tão exclusivo, tão VIP, tão importante, e ficava curtindo, esbanjando, ostentando alegria. E quem era super VIP tinha a pachorra de fingir que nada tava acontecendo, que tava todo mundo junto, naquela panelinha democrática, mas via (!) quem era da casta superior, e quem não era. Ficavam fora de foco, os pé de chulé! E não tinham nem o direito de saber disso! Ahahahahah!

E acontecia uns lances engraçados, tinham uns globais, uns televisivos, que não eram super VIPs, e uns anônimos que eram, então rolavam situações de um não super VIP despejar empáfia num super VIP, porque um era famoso e o outro não, no entanto eu via isso vendo um cara exibido, expansivo, porém fora de foco, tirando uma onda, na pista, com a cara de um ex-nerd, filho de banqueiro ou algo que o valha, em foco, completamente em foco, hiper definido, inabalável, como se sua existência social estivesse somente ligada à nitidez entre seus semelhantes, e na distinção da plebe! Era a coisa mais engracada do mundo: o Bam-Bam lá, todo estúpido, embotado em sua grosseria, sem detalhes, esculachando à distância um almofadinha contido e elegante, na verdade infinitamente mais escroto em sua autoafirmação silenciosa do que o novo rico que ele desprezava.

Diferença gritante: um quer esculachar, o outro esnoba, ignora. Papo entre burguês e aristocrata; um usa como se tudo estivesse pra acabar, o outro usa como quem sempre teve. Um é novo rico, o outro tem notas mofadas nos bolsos. Se for falar das putas ou das peruas, então, aí é que fica grotesco mesmo. As moscas em volta do bar, fora de foco, arrodeando as carnes podres, definidinhas como quem controla o mundo. Acredite quem puder, dias desses você vai ter a sorte de ir a uma dessas, como eu fui, e ver como é. Mas cuidado: você poder ir sem ser na condição de super VIP, aí você tá lascado, porque nunca vai saber…


Texto por Terêncio Porto (- perfil)


Imagem: Diego Kaeli, inspirada no texto.

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