terça-feira, 5 de outubro de 2010

A lógica dos objetos perdidos

a organização do tempo em horas e minutos quanta ingenuidade pensar que é possível engavetar dessa maneira todos os impulsos as vibrações essa febre que se adere à epiderme ao finíssimo pó repousante sobre os móveis ao grito jurássico dos autos ao silêncio dos livros fechados todos eles tramando um dia em sendo abertos interferir sobremaneira na simplicidade dos planos futuros inventar nomes para os dias e nem mesmo assim se quedar satisfeito permanecendo somente um vício insistente em querer simbolizar seres e coisas com a sensação de salvar do anonimato o que também como qualquer um se deixa afogar enquanto a música permanece tocando acima da confissão e acima dos pensamentos e de tudo o que cresce nos intervalos entre sombra e luz sua solidão seu medo a conversa interrompida o tempo de partir de não mais ver nunca mais e a suspeita de que tenha sido loucura ou tudo tenha acontecido tal qual aconteceu um instinto brutal quase violento de desafogar-se à revelia os horários dos trens das cartas devidamente remetidas com o compromisso de chegar ao destinatário sem sofrer descaminho:

os braços são mais propensos à violência do que os ombros pois os braços têm mais mobilidade que os ombros mas os ombros podem carregar crianças fazendo-as enxergar longe o horizonte e podem suportar tudo o que o
mundo despejar sobre si enquanto as mãos estas são mais propensas à violência do que os braços pois as mãos podem agarrar e não deixar partir e ainda mais traduzir vis pensamentos em ações que se desdobram a distâncias infinitas e podem assim também cobrir o rosto de vergonha ou conter o choro ou ainda banhar com água fria a face semiadormecida depois de sentir o contorno de outro corpo ainda podendo em gesto estúpido e terminal transcendendo extensões dos impulsos agregar-se a lâminas ou armas e promover o fim sem que os olhos possam reagir os olhos podem tão pouco perto das mãos pacientes que são os olhos desejam e esperam sorriem sugerem mas não os olhos são tão propensos à violência quanto os ombros e os braços e as mãos porque todos os desejos nascem no olhar e se espalham e percorrem o corpo e o comando dos gestos



Texto por Assionara Souza
Imagem por Fernanda Franco, inspirada no texto

5 comentários:

  1. ura!

    tic-tac pow!



    :o/


    valeu, fernanda

    ResponderExcluir
  2. fluxo de (in)consciência? adorei: "porque todos os desejos nascem no olhar e se espalham e percorrem o corpo e o comando dos gestos". e a imagem da fernanda sempre cheia de sugestões. o título tbm é super inventivo...

    ResponderExcluir