quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Viandante

Imagem: Maria Matina


Não sabia se o que tinha em minhas mãos era um gato ou um cachorro. Na verdade não importava. O que eu queria era amalgamá-lo ao meu corpo, de modo que ao afagá-lo, afagava-me. Sentia falta de carícias. Minha vida transformou-se num deserto árido depois da partida de quem importava. Eu fui um acessório dele, existi em sua função. Era uma perna da mesa. Se isso me colocava em uma situação de subserviência muda, por outro lado me dava segurança, pois sem perna a mesa cai. Mas a perna pode ser trocada. Achando repouso em outra ou em outras tantas a mesa descartou sua velha perna e colocou uma(s) nova(s) em folha, coberta(s) de verniz.

A perna sustenta a tábua da mesa, mas esta, por seu turno, dá apoio a cada uma das pernas. Sem a tábua a perna caiu. No chão, desolada. Pessoas passavam e bradavam “levanta, perna!”. “Sem tábua, a perna não pára em pé”, respondia. E aquele cachorro no meu colo... eu acho que era cachorro... mas ele foi ficando com cara de gato, foi virando gato. E ao virar gato ficou independente dos meus afagos. Os aceitava de bom grado, mas se não os recebia não se fazia de rogado e ia se esfregar numa cadeira ou no sofá. Fiquei fitando-o enquanto sentia mutações em meu corpo. Perdia meu formato longilíneo, crescia para os lados, criava uma grande base de sustentação. Agora eu conseguia parar em pé. Não era mais perna de mesa. Era qualquer outra coisa que consegue parar em pé. Aproveitei a independência recém conquistada para caminhar. Em algum momento esta viandante descobriria em que tinha se transformado.

 
Texto: Renato Amado.

5 comentários:

  1. Olá, Renato! Foi preciso perder a mesa para descobrir que era mais que uma perna. Sim, ás vezes os bichos se moldam a nós, e noutras vezes moldamos os nossos bichos. A vida é isso, e só isso, descobertas. Estejamos prontos, digamos sim, até para os nãos.

    Sobre comida que deprime, fibromialgia que ataca, mulher que estressa... leia o http://jefhcardoso.blogspot.com e tire suas próprias conclusões. Boa semana! Abraços!

    “Para o legítimo sonhador não há sonho frustrado, mas sim sonho em curso” (Jefhcardoso)

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  2. Renatinho querido, o CLP tem se mostrado um grande instrumento de amadurecimento de sua arte... Esse texto mostra bem isso, parabéns mesmo! Está fantástico e de uma conclusão tão humana e tão inesperada da bela imagem da Maria Matina (que, por sua vez, lembra uma daquelas belas xilografias das literaturas de cordel, muitas vezes de qualidade bem superior àqueles textos). Excelente texto, belíssima imagem. Isso é CLP!

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  3. até o renato fica lírico com uma imagem da matina!

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  4. Renato, adorei o texto achei que a moça virou uma mesa de piquenique, ehehhehe, brincadeiras a parte, muito obrigada ficou lindo!

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