domingo, 28 de novembro de 2010

As Esponjas e as Bactérias



Os cientistas ainda não sabem se o universo é infinito ou só incomensurável. O próprio universo que conhecemos – quer dizer, que os cientistas conhecem – pode conter milhares de outros universos e está sempre se expandindo.

O que vemos no universo quando olhamos para o alto ou vamos a um planetário nada mais é do que o que estava ali há 14 bilhões de anos. O que vemos ali agora está na verdade a uma distância muito maior de nós, ou até já nem existe, ou já virou outra coisa...

Como todo mundo aprendeu na escola, a nossa galáxia é a Via Láctea, e o nosso sistema é o Sistema Solar. Mais do que isso, nós, que não somos cientistas, provavelmente nunca vamos ficar sabendo. Dizem eles – os cientistas – que, por causa da forma como as galáxias se aglomeram e se distribuem, o universo tem a aparência de uma célula. A vida na Terra também nada mais é do que um aglomerado de células. A célula é a menor porção da matéria viva. Da vida em si.

No corpo de todos os organismos, as células, assim como o universo, estão sempre em movimento. Uma célula morre, não sem antes dar suas informações genéticas para a próxima célula que virá. Assim, o corpo continua funcionando e a gente continua vivo. Há quem diga – de novo, os cientistas – que de sete em sete anos todas as células do corpo de um ser humano terão morrido e dado lugar a novas células. É a chamada renovação celular. De sete em sete anos seríamos pessoas completamente diferentes, mas com a mesma informação genética. Não sei se isso é verdade, mas até que faz sentido. Se não me engano (não sou muito religiosa...), o budismo tem ciclos de sete em sete anos. A astrologia também. Sete, catorze, vinte e um, vinte e oito. Não comprava muito essa coisa da astrologia não, mas agora que fiquei sabendo que os cientistas também acreditam em ciclos de sete, tô fodida. O Retorno de Saturno tá chegando pra mim.

Mas não era nada disso que eu queria dizer. Falei isso tudo só pra vocês entenderem do que eu quero falar. O que eu queria dizer é que a morte – ela, sempre ela – tem tudo a ver com o envelhecimento celular. Quando você estiver no décimo segundo ciclo de sete, com 84 anos, as suas células vão passar para as que vierem no lugar delas a informação genética de que você está ficando velho. Daí pra frente, menino, é ladeira abaixo. Mas isso obviamente se você – ou eu – não morrer antes, de alguma doença ou trauma que degenere ou interrompa o processo celular do seu corpo. Tantas possibilidades, tantos medos, quando na verdade é tudo bem simples: doença, trauma ou envelhecimento celular. São só três as formas de morrer.

Sete bilhões de pessoas no mundo. Sem contar o crescimento demográfico dos próximos ciclos de sete. Sem contar também a preferência por organismos humanos do sexo masculino na China. Ou o equilíbrio populacional que as guerras empreendem. Nada disso interessa. O que interessa é que todas as multidões do planeta, aquelas que se aglomeram esperando o sinal abrir para os pedestres, na Rio Branco ou na Quinta Avenida, todas as pessoas só têm três formas de morrer. Se elas morrerem na rua, na cama de casa ou na maca do hospital, eletrodos ligados ao corpo e o piiii daquela maquininha, quando o gráfico vira linha reta e o médico anuncia a hora da morte pra botar no atestado de óbito, não interessa. Fato é que teremos morrido de uma das apenas três maneiras de morrer.

A parte boa – se é que existe alguma parte boa nisso – é que há organismos no planeta, em meio a toda a diversidade existente, que não ficam velhos. É verdade. Isso também são eles – os cientistas – que dizem. As bactérias, por exemplo, duplicam suas células a cada vinte minutos. Se houver condições suficientes (alimentação, ambiente propício e tal), elas não envelhecem nunca. As células das bactérias vão sempre se reproduzir e elas nunca vão morrer de velhice. As esponjas também. O envelhecimento celular das esponjas é quase nulo, muitas vezes nem dá pra ser detectado. O que significa que se não vier um tubarão para comê-las (e eu nem sei se tubarão come esponja) ou se elas não forem intoxicadas pelo óleo derramado por algum navio em alto-mar, as esponjas não morrem nunca. A mesma coisa com as bactérias. Se não houver um exército de antibióticos armado com fuzis para assassiná-las, as bactérias também não morrem.

É claro que na prática isso é quase impossível. Mais cedo ou mais tarde, dentro do tempo da Terra, eventualmente elas também vão ser atingidas por doenças ou traumas, e vão morrer. Não é que as esponjas e as bactérias sejam imortais. É só que, pra elas, só existem duas formas de morte, e não três. E era isso que eu queria dizer.

Música: Gilson Beck.
Texto: Maíra Fernandes de Melo.

6 comentários:

  1. Incrível o casamento da música com o texto. Fui lendo e ouvindo a música como trilha sonora e a experiência sensorial foi impressionante. A música tem mesmo a ver com essas questões do Universo, do envelhecimento e da morte; e o texto é um primor! =D

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  2. a musica do gilson me lembrou o bolero de ravel, num crescendo obsedante. quer dizer, ao menos tive uma impressão q era um crescendo. talvez não fosse... e talvez o universo não esteja + se expandindo e só saibamos disso daqui a 14 bilhões de anos. enfim muitas incertezas, a não ser q só há 3 formas de morrer. genial, maíra, mas sinceramente acho q vc está ficando msm fodida da cabeça...

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  3. Uau. Parabéns mesmo aos dois.

    Curioso o casamento entre o texto e a música, principalmente quanto à duração.
    Quando eu terminei de ler o texto a música tinha chegado a uma pausa e eu pensei até que tinha batido a leitura com o som.

    Tava na metade.

    Daí eu continuei ouvindo, e a música foi me trazendo de volta ao texto, a novas reflexões...

    Fantástico. Mais uma vez, parabéns

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