quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Eyeball Final





Olhou para o relógio, 6h14 da manhã. Fez o cálculo do dia e decidiu: mais meia hora na cama não ia fazer mal. Estirou o braço direito pro lado até alcançar o maço de Marlboro que escapuliu - como isso?- quase pro meio do quarto. Mormaço. Nem estava com sono. Curtia essas primeiras horas que eram de sua exclusiva posse. Já pensou se incendeia tudo nesse quarto? Do jeito que tem papel solto por aqui. Fechou a mão em concha pra acender o cigarro, o barulho do isqueiro era fatal. Dava uma espécie de tiro de largada no dia. Tsssk! Foooooê!!! Era assim que o professor de natação gritava quando ele era moleque. Olhava tanto pro cara pensando no exato momento em que ele ia gritar Foooooê! que a coisa toda se tornou uma espécie de competição silenciosa. Aquele sim era um perdedor convicto. Conformava-se por ter um corpão malhado e, sempre que podia, mordia os pés das meninas quando elas saracoteavam na piscina. De sua parte, não levou a sério a natação. Fez mais porque a mãe insistiu que ele precisava fortalecer os brônquios. Essa coisa de mãe. Agora que tinha os pulmões tratados, enchia-os de nicotina desde as primeiras horas. Lançou o olhar para a nuvem de fumaça que insensava o ar do quarto. Que dia é hoje mesmo? Sexta. Sexta-feira. E foi fumando. Porra é essa, meu? Sexta-feira já?! Repassou a semana. Cabeça sobre o braço esquerdo em cima do travesseiro. Com o direito coçava os pelos do peito. Mais uma baforada, virou pra olhar a luzinha do relógio: 6h37. Fez as contas, deu 24min acrescentados do 1min que demorou pra somar. O cigarro estava a menos de 1/3. Deu uma geral na sua lente-submarino de quarto pra ver se avistava o cinzeiro atrás de alguma anêmona. Ali! Esticou o pé direito. Precisava se alongar. Se ao menos trepasse umas três vezes por semana. No começo do namoro, ela bem que queria todo dia. Agora ele tinha que fingir que não estava querendo, pra ela poder achar que as mulheres também necessitam de sexo e que o feminismo pipipi popopó. Essa baboseira toda. Cachorrinha mais linda essa que ele achou na rua. Uma boa bisca de mulher. Mas estava ficando cansada pra lida. Ele sabe que tem uma dose de culpa nisso. Bons tempos em que fodiam sem trégua como se um fosse o cavalo do outro e vice-versa. Agora era aquela coisa regrada e conjugal. Bem gozavam, já se afastavam um do outro e agarravam algum jornal ou livro solto por ali. Fazer o quê? Insistir? Isso é que não. Pelo menos tinha alguém para baixar os lançamentos. Ela ficava horas no computador metendo legenda portuguesa nos enlatados fresquinhos de hollywood. Tinha um humor ótimo. E uma bunda idem. Puta garota essa a dele. Mas o cara não era lá de tantas pretensões. Tantas ambições. Só um carinha normal. Um carinha legal. Ultimamente o esquema se resumia em comer, fumar, peidar e dormir. E quando dava, ver esses filmes todos com a cachorrinha. Talvez ele quisesse fazer cinema. Ela um dia disse: por que que a gente não faz cinema naquela facul? E não é que ela foi lá e fez? Ele tinha um trampo, claro. Não era um total vagal. Cuidava da banquinha de revistas do pai. Era bom que assim lia todos os jornais e pegava os cigarros que quisesse. Opa, mais um pouquinho e conseguiria puxar o cinziero com o dedão. Lembrou aquele filme Meu pé esquerdo. Esquerdo? Vejam como são as coisas, num filme o Daniel Day-Lewis come a Juliete Binoche, noutro é um pintor que só consegue mover um pé. Assim caminha a humanidade. Acendeu outro cigarro, a conversa estava boa. Virou 15° para avistar o relógio: 6h47. Já era. Jogou o cobertor pesado fora do corpo. Acordar exige tantas modalidades esportivas. Fez um malabares com as pernas para se livrar do calor. Tinha também aquele filme em que o cara era escravo de um paquistanês. Minha adorável lavanderia. Lembrou que caiu feito um pato com esse título. Entrou no cinema por engano. Achou que era uma dessas películas de sacanagem cheia da mulherada molhadinha com as saias entre as coxas. Que nada. Filme de amor entre dois caras. Tragou forte comprimindo os lábios, meio sério e pensativo. E lá vinha arrastando-se numa sofisticada tática bélica aquelele maldito facho de luz que exatamente às 7h26 dos dias de sol desenhava um traço quente e volumoso do seu ombropescoço à testa. Venha! Pode vir. Tou de boa. Já estava em seu terceiro cigarro. Quem era mesmo que falava esse Tou de boa? A primeira vez que ouviu achou que o cara estava falando francês. Tout de Boi, repetiu até virar um mantra. A bagana belisca-lhe. Ah, maldita impiedosa - agora vai ver só o que acontece com os traidores. Matou-a sem dó no fundo do cinzeiro. Tudo conta ao tempo. E tudo conta o tempo. Contra o tempo: contratempo. Tinha também passatempo - que virou nome de biscoito. Levava pra comer depois da natação um pacotinho inteiro. Hoje não aguenta nem sentir o cheiro. As pontas dos dedos já estavam amarelas do vício. Os vícios transparecem. Mas a filhadaputagem é algo que ninguém percebe. Ficou brincando com o Zippo tipo fazendo um som tarantino. Pode crer, se pudesse cair no dia direto pra dentro de um filme, ia ser o Reservoir Dogs. Ainda antes do almoço. Girou o corpo na cama arrastando-se em posição parabrisa. Esticou os pés até encaixar certinho dentro dos chinelos. Cravados 7h45. O corpo quente. Deu duas tossidas másculas e, - juntando todas as forças - por fim: ergueu-se. Curvado em C mirou as dobrinhas da barriga branca e cheia de sinais. Quase que faziam quatro. Não chegava a ser uma pança. Era um cara magro. Se tivesse que cuidar do corpo queria ser tipo o Rock, o lutador, mas no I. Depois a coisa fica meio chata. Os braços estirados cotovelos com joelhos. Esfregou as mãos. Tava frio. Não ia tomar banho nem a pau. Cheirou os sovacos. Sentia-se bem assim. Um bebezão fedido a xixi. Enfim, um cara desses bem legais com quem você certamente sentiria vontade de fumar um cigarro junto. Só um cara que ia levando a vida sem saber muito bem o que isso poderia significar. Ás vezes batia um certo medo. Pode ter certeza disso.


Texto: Assionara Souza
Ilustração: Marcelo Damm

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