segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Fusão

Imagem por Marcos Sêmola.


Antes da escuna sair são transimitidas pequenas instruções de segurança. Nunca se juntem todos em um lado só. Não pulem. Em caso de naufrágio serão distribuídos coletes para todos os passageiros. Vistam primeiro as crianças. Nada disso nunca acontece.



Seguros do passeio em mar aberto, saímos da costa até sermos completamente engolidos pelos azuis do céu e do mar, que naquele dia estavam impressionantemente no mesmo tom, como se o alto mar fosse o baixo céu. Muitos tiravam fotos; uma família com duas crianças filmava sua alegria de férias.



Eu sempre tive medo do mar. Nasci embalado por seu chiado. Cresci com ele de frente para mim, ameaçando diariamente minhas manhãs com suas ondas cheias de espuma, cheias de ódio. Nunca tive coragem de ir em apneia além das águas que cobrem meus joelhos. Fiz questão de aprender a nadar o mais cedo possível, pois sempre julguei que fosse precisar. Meu avô, após o primeiro trago matinal de Minister, esfregava meus cabelos e dizia “Um dia o mar vai cobrar o que é dele”. E tudo é dele. Tudo.



E quando cresci decidi trabalhar no mar, como que me aliando ao inimigo. Decidi pagar minhas dívidas com o monstro antes que ele as cobrasse. Todo dia, antes de receber o grupo do primeiro passeio, molhava minha mão em sua água salgada e pedia perdão. Não sei por qual pecado. Ele sabe.



Naquele dia em que mar e céu se fundiram saí da costa com medo. Molhei a mão e a água me pareceu mais salgada, ou mais grudenta, ou ainda mais cruel comigo. As pessoas passavam e pediam para tirar fotos com meu quepe e eu, pela primeira vez, disse que deixaria apenas ao final do passeio, com medo de que o mar confundisse seu devedor. Em mar aberto, senti a desobediência do timão por duas vezes antes de bater, já à deriva, em uma pequena rocha, das mais inofensivas para qualquer embarcação, menos para a minha.



As famílias entraram em pânico. Eu avisei que não era necessário ter medo, havia coletes para todos e não estávamos tão longe assim da costa. Antes que a tripulação conseguisse distribuir os coletes, muitos se atiraram ao mar e começaram a nadar por conta própria. Apenas três pessoas pegaram os coletes e saíram calmamente pelo mar. A tripulação entrou em contato com a guarda costeira, que avisou que chegaria dentro de meia hora. Todos decidiram vestir seus coletes e nadar para algum lugar mais seguro, conduzindo os turistas em segurança.



Eu não. Eu pedi para ficar na embarcação. Seguros de que ficaria bem, me abandonaram sozinho - as regras náuticas não se aplicam no raro desespero das embarcações turísticas. E eu, pela primeira vez, fitei o mar com coragem. Perguntei a ele a dívida, o pecado, o erro. Ele apenas sacudia mais e mais a embarcação. Num ato de abandono de armas, joguei-me em suas águas sem colete. “Aqui estou”.



Ainda consegui ver a tripulação conduzindo os turistas ao navio da guarda costeira, todos vivos, todos seguros, todos sem dívidas. Ainda consegui ver um pescador em sua pequena jangada, observando a estranha movimentação em águas tão familiares. Ainda consegui ver um turista de caiaque assistindo a tudo como num cinema. Todos eles - todos - me viram também, me viram batendo os braços, bebendo água e passando cada vez maiores intervalos de tempo debaixo do céu-mar. Todos eles acompanharam a cobrança da minha dívida incógnita. Todos fiscalizaram a vitória do céu-mar contra o grande pecador. No dia em que céu e mar se fundiram me fundi a ambos.



Mas um dia todos serão dele. Tudo é dele. Tudo.



Texto por Saulo Aride.

4 comentários:

  1. Gostei disso, Saulo!
    Curioso como, enquanto lia, ia sendo levado para uma perspectiva relativa a imagem até chegar ao fim e ver tudo mudar de direção como que por mágica.

    Parabéns e obrigado por suporta minha fotografia com tão belo conto.

    ResponderExcluir
  2. puxa, o conto do saulo literalmente (ou literariamente) "engolfa" a foto do sêmola e a faz sua, lhe dá nova e assombrosa perspectiva. acho q nunca antes na história do CL&P um texto redimensionou tão fortemente uma imagem até q uma "fusão" poética os fizesse indistinguíveis...

    ResponderExcluir
  3. Semola e Saulo, que dupla! E que "fusão", como bem ressaltou o Preger! Parabéns!!!

    ResponderExcluir