quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Gente fudida da cabeça



Um belo dia eu fiquei fudido da cabeça. É, fudido. Minha mãe não morreu, meu namoro não terminou, não perdi o emprego. Mas foi como se de uma hora pra outra, um parafuso tivesse se soltado lá dentro e as minhas sinapses ficassem com algumas desconexões. Tive ondas de frio, de calor, descamações de pele, medo de tudo e de todos. De repente; do dia pra noite. Eu fiquei maluco, assim, sem perceber. Quando a coisa foi ficando mais séria, eu enveredei por uns lances de tomar remédio. Comecei com o Rivotril, foi meu primeiro tarja preta. Quando eu parei pra me dar conta, meu coquetel diário já incluía doses de ritalina, sertralina e vários outros antidepressivos, ansiolíticos e benzodiazepínicos.

Quando eu fiquei maluco, o mundo foi perdendo a cor. Foi tudo ficando meio pálido, meio ocre, meio tom pastel. Fui perdendo o sabor dos alimentos, a graça de estar com meus amigos, eu fui perdendo tudo. Perdi também o cheiro dos perfumes, a libido, a beleza, o birlho nos olhos. Foi tudo acabando, foi tudo virando remédio e comprimido. Do dia pra noite, vi minha vida ser transformada em consultas médicas e exames, em diagnósticos falsos; depois, em terapias freudianas, jungianas e lacanianas; em acupuntura, shiatsu, terapia dos chakras.

Fui colocando o corpo a serviço da mente aos poucos, fui inutilizando meu corpo, me privando dos prazeres carnais, me privando de tudo. Quando eu fiquei maluco, foi assim. Eu via os mendigos e pensavam que eles podiam ser felizes. Pensava que eles não tinham onde morar, mas tinham todos os parafusos no lugar certo. Pensava que não precisavam tomar remédio.

Gente fudida da cabeça é foda. Você olha pra pessoa e logo saca quando ela toma remédio pra dormir. Tem gente que toma remédio é pra se manter vivo, pra se manter em pé, se não pira. E mesmo tomando vários remédios, ainda tem gente que surta.

Gente fudida da cabeça não tem eira nem beira, não tem Deus, não tem em quem se escorar quando o mundo desaba sobre a sua cabeça, que já está fudida. Toda esse gente fudida da cabeça, que começa discreta no Clube do Rivotril, não tem onde chegar, não tem pódio, só tem sono e vontade de não fazer nada. Não é vontade de morrer, não é isso. É uma vontade de que o espaço-tempo se desregule e que possa prolongar o tempo que dormimos.

Eu tenho olheiras, tenho dores na face, tenho dores no baço e minhas pernas às vezes ficam dormentes. Eu sou hipertenso de vez em quando, mas meu cardiologista disse que isso não existe. Eu tomo remédio pra hipertensão escondido, porque eu sou maluco, eu sou fudido da cabeça. Meus médicos mandam eu ir à praia e não encasquetar com essas coisas. Meus 29 exames [endocscopia, ecodoppler cardíaco, hemograma completo e diversas sorologias no sangue, ultrassonografia abdominal total, eletrocardiograma, eletroencefalograma e outros], todos eles, mostram que eu sou uma pessoa ótima, normal, saudável. Só que eu sou fudido da cabeça. E é por isso que eu sinto essas coisas.

Minha mãe diz que eu não sou maluco, mas ela só quer me acalmar. Ela diz isso porque sabe que eu sempre fui um cara muito saudável e não entende como eu possa ter ficado fudido, assim, fudido da cabeça, de um dia pro outro. Meu pai acha que eu tenho uma angústia escondida, alguma coisa que eu não tenha contado nem pra ele nem pra ninguém. Se eu inventasse um tio pedófilo, as coisas teriam uma solução melhor, haveria uma causa que as pessoas poderiam apontar: 'é isso'.

Mas eu não tenho um tio pedófilo. Eu não fui assediado na infância. Eu não tenho cânceres, não tenho tumores, não tenho doenças sexualmente transmissíveis. Mas agora eu faço parte dessa galera que está fudida, fudida da cabeça, sabe? E eu fui dar um rolé no Museu da República anteontem, pra ver se eu me acalmava um pouco porque os remédios não estavam fazendo efeito. Foi uma das poucas vezes em que eu saí de casa porque eu quis e não porque eu precisei.

Cheguei num laguinho bonito no meio do parque, olhei pra baixo e não vi meu reflexo. O que eu vi foi uma coisa disforme, parecia uma arma alienígena de longo alcance, umas bolotas cinzas que iam se afunilando e se afunilando. Dentro das bolas, a cor era cinza e parecia a superfície da Lua, ou de Marte, já não sei.

O reflexo que eu vi ali não era o meu, eu não vi reflexo de nada. Eu só conseguia ver a merda da arma alienígena e umas folhas de oitis esparramadas. Eu pensei em jogar uma moeda no lago pra pedir que tudo voltasse ao normal, mas eu só perturbaria a ordem sereníssima das folhas dos oitis. Eu pensei em me jogar no lago, mas eu não morreria. O lago é raso e eu só conseguiria ser ridículo, o que, definitivamente, não era meu objetivo.

Então, eu tomei a decisão mais sábia que eu poderia ter tomado. Fiquei olhando pro lago, na expectativa torpe de que a arma alienígena saísse de dentro do lago e se voltasse contra mim. E eu quis que ela atirasse, e que ou me matasse de uma vez ou me levasse embora abduzido pra essa terra distante que é a Lua ou é Marte ou é algum outro elemento idiossincrático da Via Láctea ou do espaço sideral.

O pessoal ficou olhando, teve uma hora que aglomerou gente em volta. Eles não entendiam o que eu queria, não conseguiam se comunicar comigo, eu estava aéreo. Mas eles não entendem porque eles são normais, eles têm protocolos, têm regras, têm lógica e têm os parafusos no lugar certo. Mas o meu modo de pensar e de agir é diferente, eu sou maluco; eu tomo Rivotril e tomo ritalina, eu tomo ansiolíticos, tomo antidepressivos; porque agora eu faço parte dessa galera que é fudida, fudida da cabeça.


Imagem: Ana Muniz
Texto: Igor Dias

6 comentários:

  1. a imagem da ana é fudida (ou fodida???) msm! as folhas se destacam da fotografia causando um efeito surreal, ou "alienígena", como diria o igor. agora, é no parque lage, não? não é no museu da república. acho q o igor estava msm fodido (ou fudido???) da cabeça. já o conto traz este efeito "alienígena" com esta expressão "gente fudida da cabeça" se repetindo obsessivamente e se destacando do txt como as folhas da ana. e é pura verdade, i know what is it, esta sensação estranha q está todo mundo certinho e é só vc q tem um parafuso a menos. mas muitos parafusos na cabeça tbm não fazem muito bem...

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  2. Preger, vc tem razão. Agora que eu reparei melhor, acho que talvez seja o Parque Lage mesmo [mt embora a parte que dê pra ver do prédio lembra em muito o Museu da República]. Mas pra quem tá "fudido da cabeça", acho que tanto faz... =PP

    Outra coisa, optei por "fudido" porque acho que "fodido" é muito coisa de paulista. =PP Soaria forçado, creio.

    E quero agradecer pela imagem da Ana Muniz, muitíssimo inspiradora! XD

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  3. É Igor, percebo que a foto foi bem inspiradora mesmo!
    Quem não escreve, cria ou inventa, pode mesmo ficar "fudido da cabeça".
    Tentar entender esse mundo louco? Só tendo um parafuso a menos.

    Gostei do seu texto.
    Obrigada pela parceria!

    A comparação alienígena foi ótema, Preger! haha!

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  4. hahahaha, eu também sou fodida da cabeça!!! e também nem tenho um tio pedófilo!!!! adorei!!!

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  5. Maria Emilia Algebaile29 de novembro de 2010 15:30

    Casamento perfeito de imagem com texto. Ambos causam estranhamento, como o casamento perfeito! Vivas aos fudidos da cabeça que escrevem com tanto humor e criatividade! Adorei!

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