quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O Último Funeral



Não há um dia que passe sem que pelo menos por um instante eu pense nela. Não há um dia que passe sem que eu me odeie por ser incapaz de deixar para trás. Cada sentimento profundo vem com uma lembrança. Cada lembrança vem com uma alegria. Cada alegria vem com uma tristeza pelo destino que eventualmente teve. Arrependimento pelo que deveria ter sido, decepção pelo que se tornou, vazio pelas cicatrizes deixadas.

Chovia hoje à tarde. Abri meu velho, enferrujado e desfiado guarda-chuva, e seu cabo saiu em minha mão. Estava morto, sem reparo, sem salvação. Usei-o além que qualquer pessoa sã usaria um guarda-chuva em seu estado, não conseguia me livrar dele. Comprei-o com ela, numa ação até então sem conseqüências. Foi a última conseqüência que ainda carregava comigo. Última conseqüência concreta, pois todas as outras ainda estavam estancadas onde nunca deveriam ter se encontrado em primeiro lugar. Gostaria de poder culpá-la, mas toda a culpa estava comigo, de esperar de mais de alguém que não deveria esperar nada. Se não tivesse sido tão feliz, talvez pudesse esquecer; se não tivesse aparentado ser tão feliz comigo, talvez pudesse entender. Mas não esqueço e nem entendo, só finjo continuar.

Na chuva, procuro incessantemente alguma forma de tapar as cicatrizes. Cicatrizes de sentimentos que antes nem sabia que poderia ter, mas que tive só para depois serem deixados em mim como marcas de uma decepção. Tento tapá-las com novos momentos, mas todos acabam afogados em meio a tantas lembranças de outros momentos que se tornaram mentiras. Talvez todos os momentos não passem disso, puras mentiras a serem contadas como verdades quando o clima se faz adequado. Talvez fosse isso mesmo que precisava: a perda de meu guarda-chuva; pois agora a chuva pode descer e preencher os buracos. Não tapá-los definitivamente, mas dar a ilusão com sua água, que não existam. Fingir que nada nunca aconteceu, que nada nunca foi sentido, que nada nunca foi esperado, que nada nunca foi esperançado, que tudo não passa de um emaranhado de reflexos em água parada.

Enquanto deixo a água cair, penso em preparar um funeral para o meu guarda-chuva - sob ele aconteceram tantas coisas. Fui feliz e vi o fim; transformei-me em um monstro e me arrependi; cai como uma piada patética, tornei-me um feto contorcido esperando a morte, e enlouqueci; tive esperança e bati numa parede; me apaixonei mais uma vez, mas a distância impediu e as cicatrizes se mantiveram imperiosas; corri, corri e corri mais um pouco, até me afundar em alucinações inconseqüentes e abrir os olhos; me apaixonei outra vez, mas circunstancias impossibilitaram e deixei para trás; vivi e vivi, vivi com a lembrança.

Qual seria o melhor funeral para um guarda-chuva? Talvez levado pela água da chuva. Seria isso irônico? Não sei.

A água preenche as cicatrizes, mas em seu reflexo vejo o rosto dela. Não importa o quanto distante me faça, o quanto tente lhe evitar, nada o impede de me visitar a cada dia que se passa. Pergunto-me se em outra linha do tempo ainda tenho um guarda-chuva. Pergunto-me se decisões diferentes ainda o fariam se encontrar inteiro em minha mão. Pergunto-me, sabendo o que sei hoje, se isso seria verdadeiro, se não seria só mais um postergar de uma farsa. Mas o pior, pergunto-me se existe realmente alguma coisa além da farsa. Se tudo não passa de uma série de farsas e eventualmente pararei naquela que me convencer melhor.

Jogo o guarda-chuva no lixo. Deixo-o na sua terra do faz de conta cheia de beijos, sorrisos e chocolates. Compro um novo.

Texto: Daniel Matos

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Obra vencedora do 11º Encontro, com texto nela inspirado, vencedor do 12º Encontro.

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