segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Rosa Cintilante (exatamente de onde viemos)

Imagem: Rudy Trindade




Sabia que Rita e aquela cidade ainda a assombravam. Talvez por ser feriado de finados. Talvez por ter deixado sua pequena filha em casa pela primeira vez sozinha com o pai, a quilômetros daquele lugar. Talvez por estar novamente na cidade que seria sempre igual a Rita. Adolescente. Violenta. Seca. Impossível.

Olhava o nome de Rita, riscado na árvore solitária, em pequenas letras arredondadas, quase infantis, envolvido por um coração torto e esforçadamente delicado. Estranhamente vinha pensando em Rita com muito mais frequência que o habitual.

Exatamente naquele lugar, costumavam ler poemas em voz alta enquanto fumavam os cigarros que furtavam da mãe de Rita. Leram juntas Mrs. Dalloway, jurando que leriam todos os livros de Virginia Woolf, ainda antes dos vinte anos. Riam imitando os meninos da escola. Choraram, pensando em frases que gostariam de dizer. Rita era sempre incrivelmente sarcástica e espirituosa. Em outras palavas, apaixonante. Costumava cochilar em seu colo para depois inventar sonhos absurdos do tipo: “estávamos sendo perseguidas por policiais numa rua de uma cidade grande, talvez o Rio de Janeiro”, ela dizia, sorrindo e olhando para o lado, “senti cheio de mar, de suor, juro”. Ao argumento de que não podia sentir cheiros em sonhos, Rita respondia apenas: “posso tudo enquanto sonho, ora”. Como se pudesse fazer tudo, mesmo. Como se pudesse voar, sentir cheiros, aromas. Como se pudesse amar. Como se pudesse estar ali, vinte anos mais tarde, novamente ao seu lado.

Fazia muito calor no verão e às vezes o ar estava seco de rasgar a garganta. Nesses dias, falavam pouco e deitavam na sombra e esperavam anoitecer. Rita molhava o rosto com água mineral, não se importando se sua maquiagem levemente provinciana se desfazia com a mistura de água e suor. Jamais esqueceria o batom rosa cintilante, estranhamente cafona, como as bocas rosadas das adolescentes nos anos 80. Como adolescentes. Como os anos 80.

“A gente não pode morrer nessa cidade”, Rita dizia, às vezes de modo desesperado, às vezes de uma forma quase impessoal, como uma constatação. Às vezes dizia isso quando estava frio, com as mãos apertadas dentro de luvas vermelhas. Às vezes dizia isso quando estava calor, com um alívio incomum, molhando a boca ressecada. Era uma de suas obsessões. Morrer fora dali.

“Vou decorar essa luz”, Rita falava, “quero um momento assim quando eu for embora”. Era uma luz difusa, com alguns tons avermelhados do entardecer, muito peculiar por deixar a pele branca de Rita gratuitamente bronzeada. Era uma luz que tentava se repetir nos dias mais secos do ano e que dava lugar a noites extremamente quentes. A uma escuridão difícil de definir. A uma escuridão parecida com a adolescência: ardente e desordenada. Suada, como o sonho da vida adulta.

“Eu sei o que Rita faria no meu lugar”, ela pensava, enquanto pressionava os dedos sobre o coração torto desenhado na árvore. Possivelmente pegaria um avião e iria embora pra sempre. Deixaria vidas incompletas à sua espera, como verdadeiramente o fez. Rita jamais planejou casamento, filhos, nem qualquer sintoma de uma vida estável. Rita planejava fugas, como se estivesse num presídio de segurança máxima. Fugir, sempre. Ir para qualquer lugar desconhecido. Planejou futuros, acreditando ter realmente escolhas. Planejou não só o seu futuro, mas o futuro de ambas. Criou regras de conduta para a vida adulta. Criou amantes passionais, romances desmedidos, vidas inacreditavelmente extraordinárias. Criou diálogos que nunca se realizariam. Rita, certamente, iria embora e me deixaria pra trás.

Escreveu seu próprio nome, logo abaixo do coração de Rita. Levantou, pegou as flores que trazia consigo, deixou sobre a sepultura de Rita, foi até a rodoviária e voltou pra casa. No caminho, pensava em sua vida, tentando esquecer o que Rita faria em seu lugar.


Texto: Danielle Costa

4 comentários:

  1. puxa q bom q a dani voltou nos dando essas cintilações de um lirismo belo, misterioso e indizível, pelo menos, indizível c/ quaisquer outras palavras, pois são às vezes puras sensações, algo de falhado ou faltante q não se pode resolver nunca... o final do conto é comovente. a imagem luminosa e plena do rudy merecia estas palavras...

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  2. dani...
    valeu o texto, valeu ter te conhecido.
    obrigado

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  3. Dani, que texto lindo!!! Que bom que você voltou a escrever! O final é inesperado, e eu adoro isso. E comovente. Amei!!!!

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