quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Atroz, luz e sombra



Ergui uma palafita furada de cupins na revelia que o mar azul dos teus olhos trouxe em dois terços do tempo que durou minha reza platônica carnal. Tinhas esse indômito instinto de criar e procurar distrações em descobertas novas e foi assim que me tornei campo de análise e exploração desta tua ciência insana. Tubo de ensaio sobre a mesa matinal, nosso caso não era teatral, era uma guerra de amor maior, vencia quem mostrava mais, declarava, explodia intensidade ou pichava o muro dos vizinhos com poemas camonianos. Todo entardecer desenhavas no meu corpo as extremidades magnéticas do universo, quando a bússola eras tu: uma agulha desgovernada de norte que me deixava perdida e perturbada feita pombo correio sem mensagem declarada de paz.
Fui invadida e logo tuas coxas avermelhavam minhas ancas cruas de transa afetiva, outrora meus desejos eram outros, mas agora não há tempo para desejo na farta saciedade de gozo e riso dos dois cômodos que abrigam flertes artísticos de uma pintora de unhas. Claro que eu fui inventada – ainda lembro-me, e não poderia ser diferente – estava à mesa com um drink e resgatei o limão da borda da taça sugando o amargo generosamente enquanto rias me observando. Fiquei tomada por uma inépcia de reação sociável, não sabia bem o que fazer, mas de ti a certeza que tinha era o quão ridícula me julgavas. Sai às pressas e não perdi o sapato de cristal como a cinderela, na verdade tombei feito jaca madura bem à porta que dava para a saída, poderia contar nas mãos os espasmos que meu ego ferido já sofria desde terceiro minuto em que pude perceber tua mira indecente seguindo meus movimentos, mas vieste em auxilio e me tomaste para perto do teu tórax, para dentro da tua vida.
Morávamos no quinto andar, podíamos ver as estrelas lá de cima, uma varanda imensa na região mais alta do município. Não nos amávamos no elevador, porque ainda não havia. Sôfregos, chegávamos ao apartamento e supríamos a falta de ar permitindo que os pulmões trabalhassem conjuntamente, certos de que os lábios permaneceriam colados por longo tempo. Minha pressão era baixa, mas sal tinhas em abundância, driblávamos os desmaios e torcíamos pelo mesmo time, não tínhamos filhos, mas já nem lembrávamos a quem pertenciam os cd’s.
Cortou os pulsos! O personagem do meu inventor havia tentado suicídio no segundo parágrafo de sua mais recente obra. Bobagem! É uma história maravilhosa – eu dizia -, ele discordava atormentado na idéia de ter que escrever qualquer coisa que não conseguisse sentir na pele exposta e sangrada. Texto sem vida, sem graça ou gracejo, sem nada! – retrucava.
Tomou para si que precisava mudar, necessitava sentir. Uma semana durou e fui mais chupada que o limão daquela noite, pecadores abusando da sorte que o trevo de quatro folhas da infância ainda trazia, pedimos indulto quando fomos ao culto, dançamos pela rua fumando maconha e fizemos serenata a Dona Cecília da casa amarela, fomos mendigos, esmolados em cachaça deitávamos pelas calçadas vendendo artesanatos de cipó.
“Marasmos de Marquês – Injunção de Felicidade” chamava-se o livro. Parei. Corri até o terraço e era como se o vermelho ensangüentado da carne fria de quem já não respira estivesse manchando todo meu corpo de culpa, saudade e dor. Não poderia ser, tudo errado, o concreto dos prédios urrava tristeza. Queria perder da mente a cena do piso branco córrego de sua última sensação, navalha e toda essa mania mentecapta de enfiar verdade no sistema venoso. Dilacerada, doía em mim o mundo ainda ter cor, os carros da cidade que não paravam, afinal ninguém parava, as luzes da rua que se acendiam enquanto as das casas se apagavam.

Convidados
Imagem: Leticia Hasselmann (perfil, blogue).
Texto: Tadeu Marcon (perfil, blogue).

4 comentários:

  1. bonito de doer o txt do tiago - elegante, lírico, com as palavras as mais exatas e o uso glorioso da 2a pessoa. adorei a "reza platônica carnal". e a imagem da letícia? elegante, lírica e (quase) exata: fiquei pensando se a enxurrada verte da cidade para dentro do quarto. acho q sim. então a posição da mulher, ereta, reta e impassível contrasta com o mundo retorcido do cômodo + cidade. ela resiste à enxurrada. senti uma tristeza dura e inconsolável, introspectiva pela ausência de visão, mas firme e digna da mulher. parabéns aos dois estreantes!

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  2. Tadeu Marcon é um caso aparte de tudo que leio na internet. Como disse certa vez, muitos podem chamá-lo de menino (pela pouca idade que tem). Mas o que são números? Penso nos jovens poetas. Penso no Jim Morrison, em Rimbaud, no Renato Russo. Não faço comparações, mas uso nomes apenas para ressaltar que este escritor (que vai da prosa à poesia de forma espantosa) ainda tem muito a dizer. E os leitores têm muito a ouvir através das palavras do passageiro.

    Fico feliz por vê-lo aqui.

    E a imagem anuncia a prosa barulhenta de Tadeu Marcon.

    "não tínhamos filhos, mas já nem lembrávamos a quem pertenciam os cd’s".

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