quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Entre sonhos oceânicos e vislumbres dourados



Acordo no sobressalto do sonho da praia novamente. O mesmo cenário Lost com o morro e mulher de costas. O que isso significa? Nunca fui de ir à praia, tão pouco esta que me assombra. Até que não seria de todo mal, mergulhar em águas cristalinas. E se tiver tubarão ou água-viva? Não entendo a figura da mulher andando em direção ao morro. O capuz na cabeça me passa sensação de frio, mas deduzo que é uma mulher porque usa saia. No sonho ela anda sem olhar para trás. Em nenhum momento revela o rosto. Há também um pano verde turquesa, caído na areia, perto de mim, mas que eu não consigo chegar. E não consigo alcançar a mulher. Por mais que eu ande rápido, estou sempre no mesmo lugar. E ela também. Como se andássemos em esteira rotatória. As ondas do mar surgem em looping, exatamente da mesma forma. Bem que eu queria estar na praia agora. Ao invés de rodeado de máquinas e scanners, editando videos para alimentar a web. Meu canal é meu Tamagoshi. Alimento de hora em hora com filmes ultra-realistas. Sou um ladrão high-tech. Meu óculos de grau tem microcâmera Salt embutida. Tudo o que vejo é filmado. Menos enquanto estou dormindo. Gostaria de filmar meus sonhos. Este e outro, de uma garota alva, com roupa cintilante e cabelos tão negros quanto à asa da Graúna, que surge em meio ao tráfego e some entre as luzes artificiais dos carros sem deixar vestígios. Garota dourada e fantasmagórica. Pele mais branca que a Lua. Sua fisionomia soa-me familiar. Não sei explicar. Às vezes sonho que estou filmando, mas não há registro. Só sei que é sonho porque não encontro o video. Gostaria de filmar meus sonhos. Talvez haja um jeito.  A barriga avisa - estou com fome. Ando até a geladeira, mas não há nada. Nem água com gás na garrafa do fundo. Nem um mísero iogurte. Uma alface velha e podre infesta a geladeira de mau cheiro. Enfio num pequeno saco de lixo com outros restos de comida e jogo pelo duto. Os corredores estão tranqüilos hoje, nada de policiais. Desço até a rua XV, avenida que nunca dorme. Moro no edifício Tijucas, coração de Curitiba. Centralizador de criaturas. Desce comigo no elevador, um índio mod usando parca inglesa e botinha dos Beatles. Índio tupinambá com trejeito inglês. Numa das mãos um arco e flechas. Na outra, vinis de Roberto Carlos, The Jam, Small Faces e The Who. São os que consigo identificar. Curitiba é cheia destes seres. Tribos urgentes, gangues urbanas. Sub-guetos. Vou para a direção contrária ao índio, que depois passa por mim em sua Vespa enfeitada com penas. Símbolo mod nas costas do casaco, cortado por compartimento de flechas. Engenharias indígenas sobre casaco inglês. Filmo e publico. Depois ando pela rua vazia em direção à farmácia 24 horas. Forma-se uma névoa rente à calçada. Lá encontro a garota alva dos meus sonhos e fico em dúvida se estou acordado ou dormindo. Certamente é a mesma figura que habita minha mente. Criou vida? Ou seria mera coincidência? Ela usa uma jaqueta dourada sobre camiseta listrada. Como a minha versão virtual. Deve morar também no centro. Enquanto paga as compras no caixa, escondo-me atrás de prateleiras. É muito parecida! Ambigüidade dialética. Coincidência líquida. Ligo minha câmera acoplada ao óculos e a filmo escondido. Uso um óculos holográfico com conexão internet wi-fi. Num lado, realidade filmada. Noutro, internet. Utilizo meu iphone como teclado, conectado com um micro CPU preso nas costas, por baixo da camiseta. No reflexo de um dos lados de meu óculos, a tela de meu canal de videos na web. No outro lado, microcâmera filmando tudo. Dou zoom na garota. Sua jaqueta é tão dourada que reflete a luz da loja causando flare no visor da câmera. Tênis de cano alto branco e calça justa. Ela pega as compras e sai. Tento segui-la, mas perco-me na escuridão de um beco.  Adentro a névoa, e não a vejo. O flare denuncia. A garota sobe a escada externa de um prédio. Escada paralela metalizada presa na estrutura do edifício baixo. O som dos passos nos degraus diminui enquanto ela sobe em direção às nuvens. Tento filmar, mas a luz do poste atrapalha. Busco o foco, movimento-me. A neblina torna-se espessa, até que a garota desaparece totalmente. Volto o video, e não encontro a imagem, como da outra vez. Pelo menos sei o seu paradeiro. É tarde, ela deve morar aqui perto. Subo as escadas atrás dela. O frio aumenta conforme chego no topo do prédio. A visão falha. Flashs de filmes explodem minha mente. Difícil encaixar os pés nos degraus estreitos. Chego na cobertura e não há nada. Nem sinal da musa dourada de cabelos negros. Fico parado um tempo, refletindo, mas depois me toco que é perigoso. Olho em volta, procuro, mas não há ninguém. Por onde ela pode ter ido? Não há porta de emergência, nem outra escada. Também não há conexão alguma com os edifícios ao lado. Desisto de procurar. Volto até a farmácia e compro os suprimentos que preciso. Pó de café, filtro, água com gás, leite e chocolate. Tudo o que um ser humano carece para sobreviver na selva. Zumbis do Crack cruzam a XV em direção à Cruz Machado. Um travesti vestido de Bat-girl na porta da Sinuca grita impropérios para o policial na viatura do outro lado.  Bat-traveco. Você vê de tudo no centro velho. Filmo um tempo, mesmo com as sacolas pesando a mão. A Bat-trava atravessa a rua e vai tirar satisfações com o guarda. Pede dinheiro, diz que vai entregá-lo. Ele liga a ignição e manda tomar no cu. Acelera o veículo, mas é atingido por bat-rangue caseiro da Bat-girl. O policial sai do carro atirando e a trava foge em direção à Carlos de Carvalho. Tiros para o alto, alvoroço. Filmo e mando pra web, alimentando meu Tamagoshi. Esta cena faz os views bombarem. 1.221 em menos de 2 minutos. Passado a confusão, subo para a base. Elevador vazio desta vez. Em casa, os computadores nunca desligam. Bebo um copo de leite e checo os emails, revejo o video na web e desmaio na cama novamente. Minha cama fica perto dos monitores. Vivo entre realidades paralelas. Sou um fantasma que habita mundos utópicos, com horários aleatórios. Não tenho certeza se estou acordado ou se estou sonhando. No mesmo cenário Lost com o morro e mulher de costas. O que será que significa? Nunca fui de ir à praia, tão pouco esta que me assombra. Até que não seria de todo mal, mergulhar em águas cristalinas. E se tiver tubarão ou água-viva? Não entendo a figura da mulher andando em direção ao morro. O capuz na cabeça me passa sensação de frio, mas deduzo que é uma mulher porque usa saia. No sonho ela anda sem olhar para trás. Em nenhum momento revela o rosto. Há também um pano verde turquesa, caído na areia, perto de mim, mas que eu não consigo chegar. E não consigo alcançar a mulher. Por mais que eu ande rápido, estou sempre no mesmo lugar. E ela também. Como se andássemos no vácuo. As ondas do mar surgem em looping, exatamente da mesma forma. Há uma placa lá atrás, mas não consigo ler. Ela caminha em direção a uma casa. Bem que eu queria estar na praia agora. Ao invés de rodeado de máquinas e scanners, editando videos para alimentar a web.

Texto Fabiano Vianna
Imagem Pilar Domingo

4 comentários:

  1. Labíríntico este conto do Fabiano, meio Lost e meio Matrix. É muito bacana pra quem é do Rio ver essa descrição de Curitiba [só estive lá uma vez], igual e diferente das outras metrópoles que conhecemos.

    Essa prosa "descontínua", por assim dizer, cai bem nesse clima de realidade virtual fantástica. E a forma como a imagem da Pilar é trabalhada no texto, isto é, no sentido oposto à inclinação natural da sensação de paz que a praia transmite, é muito surpreendente. E positiva!

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  2. Não dá vontade de parar de ler. Quero morar nessa Curitiba de dentro da cabeça do Fabiano. Um mundo estranho e ao mesmo tempo tão conhecido. Muito bom mesmo.

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  3. Cara, Ítalo Calvino + Cyberpunk + Inception! Muito bom! Bacana que tu já tem teu universo próprio, que aparece em vários dos teus contos, só que cada vez ele parece mais e mais interessante!

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