sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O Quadro


Compramos um quadro. Quadro barato. Uma pechincha. E o quadro, por algum tempo, ornamentou nossa sala de estar. A sala onde assistíamos tevê e fingíamos não ver que a vida não acaba somente quando se morre. A vida pode chegar ao fim a toda hora desde que nos alojemos nessa espécie de coma servil que é acordar, trabalhar, visitar parentes e desistir de acreditar que se pode ir mais além. E nós compramos o quadro para enfeitar ausências e para fingirmos ser felizes à beça. A pechincha ficava lá, pendurada na sala de estar, e nós a olhávamos curiosos para saber do que se tratava o quadro. Passávamos mais tempo olhando o quadro do que vivendo. Não dizem que arte é vida? Então vivíamos olhando o quadro. A obra, datada de 1900 e não sei quanto, nos enfrentava noite e dia. Bem na sala de estar. Era a imagem de uma mulher. Uma mulher com asas, barriga de grávida e havia sangue entre suas pernas. Lembro-me do dia em que compramos o quadro. Lembro-me de ter pensado que havia uma mensagem subliminar. Mas nada discutimos a respeito. Silenciamos porque ambos havíamos gostado do quadro. Nada discutimos. Até hoje, nada havíamos dito a respeito do quadro. Mas, sem explicação alguma, no intervalo da novela, você falou algo. Não percebi até você falar um pouco mais alto e chamar minha atenção. Mal acreditei quando você falou que o quadro fora barato demais para a arte que exibia. E, espantosamente, passamos a discutir acerca do quadro. Bem ali, no intervalo da novela. Percebi que, enquanto eu via apenas uma imagem, você via espetáculo. Veja só o que a arte pode nos causar. Enfim, uma discussão na pasmaceira em que vivíamos. Eu dizia que era uma fada machucada a imagem enquanto você dizia ser a representação de uma sociedade na qual crianças sofrem abuso sexual e choram seus martírios. É uma fada. Veja as asas. Não é uma fada. É uma menina sofrendo um aborto. É a Sininho. Não é a Sininho. É a constatação artística de que beiramos o caos social e crianças sofrem por vias sexuais e veja bem como o artista capturou a dor nos olhos da menina. Dor? Mas os olhos estão fechados. E por que uma menina de cabelos cor de rosa? É a transfiguração de uma juventude iludida pelo consumismo. Do que você está falando? Falo de arte. É apenas minha opinião artística. E desde quando você tem opinião artística? Desde quando você entende de arte? Você não sabe nada de arte. E você sabe? Você vê Sininho em um quadro que nada tem a ver com Peter Pan. Voltou a fumar maconha? Não fumo mais maconha. Parei desde que visitamos seus pais no último Natal. Posso ver na sua cara que está mentindo. Você voltou a fumar. Está com aquela conversa de quem voltou a fumar maconha. Não fumo mais maconha. Por que isso agora? Porque, quando você fuma, fica assim, vendo coisas. Não estou vendo coisas. Paramos. Entendemos. Silenciamos. Estávamos, após anos de boca fechada em um relacionamento gasto, discutindo a respeito de algo que não fosse mancha de café em toalha bordada. Nunca mais havíamos reparado um no outro. Vivíamos enclausurados e débeis sem perceber que éramos duas pessoas que viviam a vida esperando que o outro dia chegasse e tudo se repetisse. Finalmente nos observamos. Finalmente nos vimos diante do quadro como duas pessoas que se encontram pela primeira vez e se observam. Finalmente entendi o que era o quadro. E você, com sua voz rouca e impecável, de repente linda e mulher, percebeu o homem que sou. Olhávamos não somente o quadro. Nos vimos através dele. E especulamos acerca da pintura nele contida. Foi um dos momentos mais belos de nosso relacionamento.

Texto de Letícia Palmeira inspirado na imagem de Marcelo Damm

6 comentários:

  1. Cheguei até aqui através do blog da Letícia e adorei o projeto. Estou linkando no Longitudes, OK? Abraços!

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  2. Letícia, obrigado pelo texto. É sempre muito impressionante ver os belos e múltiplos caminhos que as letras tomam partindo das imagens!

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  3. Eu vim para ler Letícia Palmeira.
    E toda santa vez que isso acontece, eu fico em estado de graça.
    Que bom que você existe!! E escreve assim, escandalosamente bem. Que texto bom,pinceladas de dramaturgia...tem clima,tem imagem.
    Você é sf.( me lembrei...eheheh)
    Amei.

    Beijos,Neusa

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  4. muito belos, muito ótimos, tudo muito bom, txt e imagem. uma profunda e vigorosa reflexão do poder da arte, um poder não ostensivo, mas sutil e quase "invisível", uma coisa viral msm. a tv, como diz os titãs, nos "captura", anestesia e adormece (a tv é ótimo sonífero...), já a arte provoca um incomodo ou um maravilhamento (q é um outro incomodo). um incomodo no maravilhamento, como este sangue q escorre entre as pernas de uma ninfa grávida...

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  5. Letícia sempre vai além do esperado. Extrapola, escreve de verdade.

    Excelente! :D

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