sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Carranca

Com aquele sorriso jocoso ela me respondeu simplesmente “no céu.” O problema era que eu realmente precisava subir o São Francisco. Ir em busca de um tio até então sem herdeiros, que a essa altura já estava morto ou em vias de, para reivindicar o que me era de direito. O problema é que as informações eram desencontradas. O homem era um caixeiro viajante que havia feito fortuna de forma obscura. Contudo, não perdera seus hábitos ciganos e continuava, mesmo rico, viajando pelas cidades do Velho Chico. Como para encontrá-lo eu teria que zanzar de um lado para outro, num sobe-desce rio, duro como sou, comprei uma canoa e improvisei um motor de fusca nela. Mas sem carranca eu não ia embarcar nessa aventura de forma alguma. Seguro morreu de velho, oxalá, Meu Pai Nosso, que Alá me acompanhe, com a luz de Xiva. E eu ouvira falar num tal de Francisco Guarany, o maior escultor de carrancas do país. Contudo, ele só poderia ser encontrado no céu, popularmente conhecido como beleléu, segundo a senhora que fora sua vizinha por décadas. Sem carranca, sem herança e, sem herança, era melhor morrer, porque não dava mais para continuar a vida de duro que eu levava. Sim, eu estava desapegado da vida, mas navegar sem carranca pelo Chico podia trazer problema até depois da morte e se tem uma coisa que eu não quero pra minha vida, ou melhor, pra minha morte, é carregar problema. Cruz credo, eles já me perturbam demais por aqui oxalá, Meu Pai Nosso, que Alá me acompanhe, com a luz de Xiva. E enquanto eu me benzia a senhora me cortou dizendo que achava, todavia, que tinha como me colocar em contato com o homi que tava com Nosso Senhor. Tomei aquilo como uma ameaça, mas a segui, cabreiro, até um homem vestido com uma bata branca, que se sentava atrás de uma cadeira simples de madeira. Ele convocou duas pessoas com atabaque, se levantou, rodou no ritmo dos batuques até sua fisionomia mudar e, por fim, passou a andar curvado. Me perguntou “o que quer mesinfi?”. Eu disse que queria uma carranca de Francisco Guarany pra navegar pelo Chico, mas que parecia que ele tinha morrido. Ele me respondeu com um baixo ruído de repreensão, buscou uma tora de madeira e passou a esculpir nela. O processo nitidamente demoraria horas, então perguntei se poderia voltar no dia seguinte pra buscar, algo que eu não pretendia realmente fazer. Ele me respondeu convocando novamente os homens do atabaque. Eles começaram a cantar:

“Umbanda, onde estão seus caboclos?

Eles vêm de longe

Do centro do Juremá!

Com seus saiotes de penas

Na Umbanda saravá!”

No último verso eu já cantava como se conhecesse a música há tempos. Logo minhas feições também se alteraram e entortei a coluna. Olhei para o pai de santo e disse:

- Caboclo Guarany, como é bom encontrar com o senhor.

- Saravá Flecha Ligeira!

- E aí, caboclo, você não pára de fazer esses esculturas não?

- Só quando eu morrer. Ri, ri, ri...

- E essa é encomenda de quem?

- Do seu cavalo, sim senhô.

- É mesmo? E posso saber a graça de meu cavalo?

- Sei não...

- Olhe, o compadre me desculpe comentar, mas suncê é desligado demais...

- Só me interessa as carrancas. Espanta maus espíritos.

- Espanta maus espíritos é?...

- Ô, mas se não escapa um.

- Nossa, mas esse negócio é arretado mesmo! Mas olhe, já vou embora. Esse cavalo aqui é ruim demais. Dá uns trancos de vez em quando, quase me derruba fora. Precisa ser amansado...

- Cavalo novo é assim, né meu rei?

- Pois é... já vou.

- Suncê num aceita nem tomar uma cachacinha? Meu cavalo tem um alambique nos fundos da casa. Acho que ele não importa não... Gosto de dar meus tragos enquanto trabalho...

- Se suncê insiste, quem sou eu pra recusar?

Depois disso não lembro de mais nada. Quando voltei a mim, vi o pai de santo ajeitando um último detalhe na escultura e depois seu corpo foi se retesando até voltar ao normal. O cavalo só falou que estava cansado e foi dormir. A carranca estava ali, na minha frente, de graça, feita das mãos de Francisco Guarany depois de morto, mais perfeita do que eu poderia sonhar. Mas encarava-me de forma aterradora. Fui embora assustado.

Texto: Renato Amado



Fotografia: Marcos Semola - www.s4photo.co.uk

4 comentários:

  1. muito bom o txt do renato, bem ao seu estilo. mas melhor ainda é a foto do semola, q precisão e clareza no espaço curvo. só não entendi o q uma tem a ver com o outro... mas tudo bem, meus poderes de intérprete não são assim tão mediúnicos...

    ResponderExcluir
  2. Valeu, Guilherme! A brincadeira de associar a fotografia ao texto é, por vezes, traiçoeira. Pense no texto, depois em um vídeo que mostra as cenas narradas no conto....agora escolha um único frame para representar tudo. Achou? Difícil, não? Pois eu fiquei com aquele do personagem indo embora assustado depois do trabalho pronto. :-)

    ResponderExcluir
  3. Eu curti muito o texto, me lembra uns pedaços de "Grande Sertão: Veredas", pelo cenário e pela forma de contar. E a imagem eu achei simplesmente genial! XDD Quando eu bati o olho na imagem, a primeira coisa que me veio foi a frase "Fui embora assustado.". Eu gosto muito quando as artes do CLP (imagens e textos) não se explicam entre si, mas se tangenciam ou exploram uma pequena parte uma da outra, que por vezes, passaria despercebida. Acho muito divertido quando, em vez de complemento, existe alguma coisa que subverte a lógica do trabalho e foge à obviedade. Poderia ser bacana talvez uma imagem que remetesse ao Velho Chico, aos orixás ou a algum outro elemento desse mesmo campo semântico. Mas a imagem de um cara urbano numa metrópole, de susto presumido, faz muito mais do que explicar ou justificar: acrescenta. E acho que o mérito está todo aí. =P

    Abraços! o/

    ResponderExcluir