terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Gente - unicórnio

No início, era todo mundo pessoa. Só pessoa mesmo. Com o passar do tempo é que foi todo mundo virando gente-unicórnio.  Às vezes um, às vezes dois de uma vez, até que, uma hora, quando a gente se deu conta, a gente descobriu que a gente agora era gente-unicórnio (eu falo “a gente” muito assim mesmo, qualquer coisinha eu já ponho um “a gente” no meio, mas acho que é pra compensar o fato de agora a gente só ser metade gente). Mas isso não importa. Tava era falando de como a coisa toda começou.

A gente começou a se encontrar por acaso. Quando viu, já tava todo mundo junto, se encontrando direto. No início era meio reunião de AA. Cada um se apresentava, contava a sua história, falava dos seus problemas. A proposta era que se trocassem os problemas, pra dar uma aliviada geral. Um tinha mãe psicótica, o outro, pai esquizofrênico. Um avô que tinha se matado pra cá, um primo que dava defeito pra lá. A gente foi assim, trocando os nossos problemas entre a gente mesmo. Acho que foi aí que o primeiro de nós começou a virar gente-unicórnio – só que era muito no começo mesmo, e eu acho que na época ninguém reparou...
Depois foi chegando mais gente. Éramos uns quatro ou cinco, viramos uns oito ou dez. Eu lembro que quando a sétima pessoa chegou, três de nós já eram unicórnios. E a coisa foi toda indo assim. A gente acabou virando meio, sei lá, uma sociedade secreta. Eu nunca gostei de sociedade secreta, mas tenho que explicar uma coisa: quando você é gente-unicórnio, é meio difícil sair por aí, viver fora do núcleo fechado dos gente-unicórnio, junto com gente-gente, porque, bom... é meio óbvio, a gente é gente-unicórnio, e gente-unicórnio não é que nem gente-gente. Acho que quando você é gente-unicórnio e convive com gente-unicórnio, você acaba se acostumando e achando normal. E melhor até, na maior parte do tempo...

Eu lembro que um de nós uma vez entrou em crise por causa de uma namorada gente-gente – mas isso foi bem no início, quando gente-unicórnio ainda tinha namorada gente-gente. Só sei que ele não queria mais o chifre de gente-unicórnio na cabeça dele. Logo ele, que tinha o chifre mais bonito de todos nós, o chifre mais espiralado e prateado de todas as gente-unicórnio do mundo! Quer dizer, na verdade eu não sei se tem gente-unicórnio no mundo todo. Nunca conheci nenhuma. Mas eu não conheço o mundo todo mesmo... E eu acho que é muita pretensão achar que a gente seria a única gente-unicórnio do planeta inteiro. Se aconteceu com a gente, deve ter acontecido com mais gente (eu falei que eu falava muito “gente,” né? Foi mal...). Eu acho que deve ter muita gente-unicórnio por aí. Mas, sei lá, do mesmo jeito que a gente vive meio fechado, os do resto do mundo também devem viver, e a gente que é gente-unicórnio que nem eles acaba nem sabendo que eles existem...

Uma vez eu vi no jornal, acho que foi em 2008, nasceu um unicórnio – não um gente-unicórnio, mas unicórnio mesmo, só unicórnio -, lá na Itália. Mas ele não era branco como a gente não, ele era marrom. Acho que nem deu pra saber se ele era um unicórnio meio atrasado ou se era outro bicho com defeito genético. Porque os cientistas dizem que o unicórnio era lá quase da pré-história e já entrou em extinção há séculos. Mas eu sei que isso não é verdade. Pelo menos não pra gente-unicórnio... Vai ver, a evolução darwinista dos unicórnios foi eles nascerem marrons. Ou virarem metade gente, que nem a gente. Sei lá...

O que importa é que, ao longo nos nossos encontros, a gente ia aprendendo muito sobre os outros, sabe? Com o tempo, a gente acabou virando uma comunidade. A comunidade dos gente-unicórnio... Outro dia, um de nós disse que viu no Google que o unicórnio é um símbolo de pureza e força, que representa a virgindade. A virgindade eu não sei não, porque eu acho que não tem mais ninguém virgem no nosso grupo (até podia ter antes, eu acho, mas agora a gente-unicórnio trepa com gente-unicórnio – e ninguém é mais virgem... Talvez até tenha quem seja virgem de gente-gente, mas de gente-unicórnio eu posso dizer que não tem não).
A verdade é que eu acho bonito isso. A gente, que no início só queria trocar problema, acabou todo mundo virando gente-unicórnio. E ainda têm uns cientistas que dizem que unicórnio nunca existiu, é mole? Eles não sabem de nada. Mesmo os que sabem que os unicórnios existiram dizem que na verdade eles não voavam. Eu não sei os de antigamente, porque a gente, gente-unicórnio, voa sim. Não sempre, pra não dar na pinta, mas voa, e voa muito.

Se um dia, “na calada da noite” (usei essa expressão pra ficar bem bonito, assim, bem literário), você olhar pro céu e vir um bicho estranho brilhante voando, não entra em crise não, não precisa achar que tá com problemas psiquiátricos, alucinando, com regressão infantil, vendo o cavalo da She-Ra. Somos nós que estamos voando lá no céu. A gente, gente-unicórnio, nunca que ia ver um bicho estranho voando no céu e achar que tava alucinando, porque a gente simplesmente não alucina. A gente, diferente de vocês, gente-gente, já desistiu dos problemas, já sublimou. A gente simplesmente não tem mais problema. A gente virou unicórnio.


Imagem: Ana Muniz

5 comentários:

  1. Muito "Across the Universe" esse texto! rsrsrs

    O tom informal q vc estabelece faz o texto transcorrer mais levemente, com certo humor... Muito bom, menina!

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  2. Nossa surreal, mas muito bom! Super gostei! :)

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  3. gente, legal! tbm gostei do tom informal q dá uma graça especial pro conto. e as digressões entre parenteses? é tudo bem maíra msm, mas acho q ela é gente-gente e não gente-unicórnio. pelo menos, eu acho...

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  4. gente, legal! tbm gostei do tom informal q dá uma graça especial pro conto. e as digressões entre parenteses? é tudo bem maíra msm, mas acho q ela é gente-gente e não gente-unicórnio. pelo menos, eu acho... e bonito desenho ana!

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