sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Cachorro

Como na música, ela também se jogou da janela do quinto andar. A vizinha de porta. E ele só notou porque ouviu os carros de polícia, de bombeiro e a ambulância. A mistura de sons lamentosos invadindo a sala enquanto ele ouvia um disco de David Bowie.
Sabia que a vizinha morava sozinha. Sabia que a vizinha tinha cerca de trinta anos. Sabia que a vizinha geralmente chegava em casa ao anoitecer. E sabia que a vizinha era uma boa vizinha. Era tudo que sabia e achava que não precisava saber nada mais.
Pôde ver pela janela seu corpo esparramado no asfalto e uma pequena multidão em seu redor, a curiosidade patológica dos que seguem vivendo e a ajuda de que ela não mais precisava. Num primeiro momento, ficou em dúvida entre ficar onde estava e descer até a portaria para conhecer detalhes mórbidos da tragédia. Contudo, achando que era mais digno continuar em sua sala, pensou na vizinha com o carinho que poderia um desconhecido sentir por um suicida, ouviu o resto do disco e continuou com seus afazeres.
Mas desde algum instante que não soube precisar, muito de repente, tão difícil que é explicar o momento exato em que alguém se apaixona, ele não conseguiu mais deixar de pensar nela. Talvez desde o momento em que viu seu cabelo cacheado, cor de avelã, contrastando com o chão cinzento da calçada. Talvez desde a lembrança de algum dia em que cruzou com ela pelo corredor e ela parecia feliz. Talvez desde a tentativa de lembrar de sua voz. Ou talvez depois de sentir arrependimento por não ter iniciado uma conversa qualquer.
Foi até a janela novamente, imaginando o que ela pensou quando acordou ou como havia passado a noite anterior. Imaginava o que eles teriam conversado no elevador se tivessem subido juntos depois de voltar da padaria ou do jornaleiro. Colocou a roupa para lavar, pensando nela. Enviou e-mails, pensando nela. Acendeu um cigarro, pensando nela. Desenhou, tentando lembrar de seu rosto. Escolheu um disco, pensando nela.
A campainha tocou. E ele preferiu continuar sentado no sofá, pensando nela. Mas a campainha insistia.
“Você soube o que aconteceu?”
Era a outra vizinha. Cerca de sessenta anos, aposentada, a voz esganiçada.
E claro que sei, escutei o barulho. E à sua resposta, ela desata a contar sobre a vizinha suicida. Falou das drogas que usava, das olheiras que certamente eram por noites mal dormidas. Disse que a vizinha era médica e tomava remédios de tarja preta. Disse que não tinha família. E que ficara noiva duas vezes em dois anos. Disse que tinha carro, mas não gostava de dirigir. Disse que ouvia música alta, mas ele achava que era a dele que ela escutava. Disse que fumava na janela todas as noites e devia pensar em suicídio há muito tempo. Disse que o ex-noivo era apaixonado por ela. Mas que ela não queria nada com ninguém. Disse que ela morava ali há pouco tempo. E que tinha um cachorro.
E quem tomará conta do cachorro?
Ele tentou interromper, mas ela continuava escoando palavras da boca.
Dois policiais subiram e abriram seu apartamento. Invadiram sua vida como ela invadiu a calçada. Eles fizeram perguntas, fizeram anotações, fizeram mais perguntas, olharam o apartamento pequeno. Enquanto isso, ele olhava o porta retrato próximo à porta e o cachorro saía assustado pelo corredor.
Quem vai ficar com o cachorro?
Ele perguntou para os policiais, mas eles não queriam saber.
“Você viu algum movimento estranho por aqui hoje pela manhã?”
Não faço a menor ideia, ele respondeu enquanto o cachorro entrava por suas pernas.
Viu sua foto sorrindo ao lado de um homem. O ex-noivo, esclareceu a outra vizinha em poucos instantes. Vai ver foi por causa dele que ela se jogou, continuava a falar de suas teorias. Viu uma prancha de surf. Viu um disco do Dylan. O policial anotava. O porta retrato o olhava.
E o cachorro o olhava.
A vizinha continuava, dizendo que ela era cirurgiã. E às vezes saía no meio da madrugada. Disse que usava aparelho nos dentes. Que tinha uma televisão antiga que vivia com problema e que o porteiro sempre consertava. Que tinha medo de morrer asfixiada por gás. Que às vezes saía com um outro sujeito, mas não o levava para casa. Que ria muito alto com seriados de televisão. Que às vezes chegava bêbada em casa com uma amiga. Mas que essa amiga andava sumida. Que…
O policial agradeceu a ajuda e disse que, caso fosse necessário, seriam chamados para depor na Delegacia.
O vizinho continuou parado na porta do apartamento.
O cachorro o olhava.
E só então percebeu que ele sequer sabia o seu nome.



Texto: Danielle Costa
Imagem: Pilar Domingo

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