segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Último Verso

Minha história com Marisa é muito simples. Quando a conheci, eu era jovem, poeta, idealista, irreal, imaturo e intenso. Quando a abandonei, era velho, pessimista, surreal, imaturo e intenso. Certas coisas não mudam.

Marisa era a personificação da musa que sempre busquei em meus poemas. Era alta e grande, passava a segurança de uma mãe que amamenta os filhos e os filhos de seus vizinhos. Tinha a voz grossa. Não grossa, mas gutural, sufocada na laringe, de modo que já chegava à boca sem volume, sem pressão, sem possibilidade de ser modulada pela língua e contado única e exclusivamente com a força dos pulmões. Estes se encontravam armazenados num tronco feminino, de bustos largos e saudavelmente desiguais.

No dia em que nos conhecemos, ela usava uma flor apoiada na orelha esquerda. Diante de toda a bruteza de seu corpo, aquilo era um sinal de esperança, de crença no amor, de pureza. Eu, bêbado, recitava um poema contra a opressão do governo militar. Um lindo poema, como todos de minha lavra.

Enquanto eu defendia a liberdade com meu corpo frágil de poeta, Marisa respirava o conservadorismo do amor familiar com seu corpo gigantesco de matrona. Terminei minha poesia e ela não aplaudiu. Cheguei a seu lado e perguntei por quê. “Ainda não foi desta vez que você me tocou”, ela disse. Coloquei a mão em seu ombro e pedi que me levasse para sua casa.

Desde esse dia, vivi obcecado por tocar Marisa. Comecei poemas concretos em sua homenagem, mas rasguei todos. Comecei sonetos falando de sua beleza, mas tropecei na métrica e nas imagens sempre violentas de quem só pensa na liberdade. Resolvi fazer um acróstico com seu nome, um soneto todo dela, Marisa Medeiros. 14 letras em seu nome, 14 versos, 12 sílabas em cada. Não poderia ser assim tão difícil.

E não foi, realmente, exceto pelo último verso. Já tendo gasto todas as minhas forças camonianas no resto do soneto, me vi esgotado diante daquela maldita conclusão. O último verso precisava ser forte e singelo, masculino e romântico, pessoal e universal. Era muita cobrança ao mesmo tempo. A esta altura, já tínhamos dois filhos.

Um dia, resolvi mostrar a ela o quase-soneto, pedindo que me ajudasse a completar a obra de minha vida. “Cabe a você”, ela disse. “Que musa eu seria, te dando os atalhos para que finalmente me toques?”

Desisti. Saí de casa apenas com a roupa do corpo e a folha de papel amarelada com os 13 versos.

Algum tempo depois, a distância transformou Marisa, minha esposa, em Marisa, minha musa, novamente. Algum tempo depois, consegui fazer o último verso. “Só o amor de musa me faz quem devo ser”. Mandei pelo correio apenas esse verso.

Ela me respondeu: “Hoje, amor, enfim, me tocaste como quero”.

Não voltei a procurá-la. Segui em frente, certo da eternidade de minha musa e inquestionável em minhas habilidades como poeta. Certas coisas não mudam.

Texto por Saulo Aride



Imagem por Marcelo Damm

6 comentários:

  1. nossa, damm, q imagem é esta? um poeta jovem, idealista, imaturo e intenso, ou um poeta pessimista, surreal, imaturo e intenso? e saulo: um brinde às musas q sabem ser tocadas por um soneto!

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  2. nossa, damm, q imagem é esta? um poeta jovem, idealista, imaturo e intenso, ou um poeta pessimista, surreal, imaturo e intenso? e saulo: um brinde às musas q sabem ser tocadas por um soneto!

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  3. nossa, damm, q imagem é esta? um poeta jovem, idealista, imaturo e intenso, ou um poeta pessimista, surreal, imaturo e intenso? e saulo: um brinde às musas q sabem ser tocadas por um soneto!

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  4. rsrsrs adoro quando destroem minhas expectativas de final-feliz-e-sem-graça! Muito bom!
    (a imagem me lembra o cantor Lobão, não sei por que...)

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  5. uauááááá!!! muito bom!
    Pior que lembra o Lobão bão mesmo, Usui.

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