segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Verossímil


Ia mentir. Pensou que estava a ponto de mentir. E mentiu. Esperou a reação. A mentira era vermelha e cheia de pétalas. Tinha folhas grandes com uma camada aveludada como se pelos. Não dava mais tempo de recuperar. A mentira já estava se reproduzindo, 
esgueirando-se, estendendo seus braços e, destes, outros pequenos bracinhos surgindo. Ela olhou para as próprias botas. Ainda, se quisesse, podia ir a algum lugar. Tentou segurar um riso. Sim, claro. Podia fugir dali a qualquer momento. Mas e se não pudesse? Riu de novo. Ficava tensa e o riso vinha. Um sorriso desesperado seguido de um frio na barriga e suor nas mãos. 
Continuou por um tempo. Plantando mentiras e deixando que o sol dos dias desse conta de orientar a direção de seus galhos. A casa agora era tomada pelo vermelho. Os pelos agregavam-se à superfície dos móveis. E às roupas, mesmo àquelas que estavam guardadas limpas dentro das gavetas. As refeições eram sérias e acompanhadas de tosses e engasgos que os pelos provocavam. Ficavam na garganta e formavam um nó. Tinham que ser expelidos. Na hora do beijo, pensavam no incômodo de conviver ali naquela casa cercados dos tentáculos que proliferavam dia após dia. E se pudessem então congelar a mentira? Não custava tentar. À tarde, como sempre faziam, as portas eram todas fechadas. Para evitar assustar os que expiavam a vida alheia deles. Ao anoitecer é que podiam abrir as janelas. O vento frio entrava. Eles ficavam quietos e enrolados em lençóis grossos. Como dois velhos. Vez por outras trocavam gentilezas mínimas. Tolerava um a companhia do outro. Não conseguiam mais um viço de interesse mínimo um pelo outro. A mentira aos poucos foi enrijecendo. Tornando-se a própria vida que eles tinham construído. Os galhos iam da espessura mais grossa até os caminhos sanguíneos das veias que faziam o sangue circular; entrançavam-se no ar que enchia os pulmões e saíam no timbre da voz; amarravam-se ao esforço que conduzia os gestos; enfeixavam o fluxo incontínuo dos pensamentos; e congelavam no vidro fosco dos olhos dos dois. Não dava pra diferenciar o que eram eles próprios e o que eram as mentiras que envolviam o espaço da casa e a extensão de seus corpos.




Imagem: Diego Kaeli

2 comentários:

  1. O texto é ótimo e a imagem é de uma sensibilidade ímpar, que vai muito além do óbvio! =D Parabéns à dupla!

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