sábado, 12 de fevereiro de 2011

A Cidade Diamante

Meio da madrugada, um soldado do tráfico observa a cidade a dormir lá embaixo. Em sua mente, uma canção:

No meio da noite, tudo o que tenho é você, cidade-diamante
Brilha escandalosa, com o fogo de uma amante
Você parece tão perto, ao alcance da minha mão
Mas tentar tocar você é como tentar tocar a própria ilusão

A distância entre nós, eu sei, é grande
Não precisa me lembrar quem eu sou, eu sei o meu lugar, eu sei a minha sina
Mas se você é o meu patrão, eu sou sua morfina

Olhando o seu brilho, quase penso que você é pura, que você é dama
Mas eu sei de tu, eu sei da tua lama
O que mantém este teu brilho são vidas simplesmente
Fornalha de almas, fogueira de gente

Sedenta e vaidosa, tu sempre quer mais
Quanto custa o teu brilho? É quanto custa a tua paz
Se eu quiser, acabo com a tua pose, acabo com a tua festa
Cidade-diamante, o meu ódio é o que me resta

Cidade-diamante, nossa guerra nunca vai ter fim
Desejar o que nunca vou ter é o que a vida reservou pra mim
Por isso não quero o teu beijo da morte, nem que você me estrangule com seu abraço
Você se defende com o seu dinheiro, eu me defendo com o meu aço...

SOLDADO 1 estava apontando seu fuzil para a cidade, quando soldado 2 se aproximou:
SOLDADO 2: Ih, que parada é essa, maluco? Tá querendo arrumar arengação com os homens lá embaixo?
SOLDADO 1: Tu chega atrasado pra rendição e ainda quer arrumar idéia, cumpadre?
SOLDADO 2: Tô com o meu moleque doente. Por quê? Vai me regular agora?
SOLDADO 1: Vê se fica esperto, mané! Vou segurar essa. Mas vou soltar uma letra pra tu: vagabundo já ta numa de detonar, falei?
SOLDADO 2: Demorou.
SOLDADO 1: Acabei de fazer um rap. Quer ouvir?
SOLDADO 2: Ih, se liga, mané! Não tem essa de artista! A gente não tem futuro não. Este negócio de fazer música é vacilação. Nego aproveita que tu tá de bobeira e te mete um bote, mané.
SOLDADO 1: Vai esculachar agora, vacilão? Toma.
O soldado 1 entregou ao outro o seu AK-47.
SOLDADO 1: Fui!
SOLDADO 2: Já é.
O Soldado 1 se foi, cantarolando a sua música. O Soldado 2 assumiu o seu posto.
Tudo calmo. Lá embaixo, a cidade podia dormir em paz.



Texto: Júlio Corrêa
Música: Gilson Beck

3 comentários:

  1. Bom texto, bom poema e estrutura curiosa: poema e depois diálogo. O poema é denso e rico.

    Gostei também da música do Gilson. Segue perfeitamente o texto. O silêncio da noite, a música a começar a compor-se, depois o ritmo e o rap. A batida, muito bem escolhida.

    Bom encaixe. Parabéns aos dois.

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  2. q clima meio fantasma tem a musica do gilson, perfeita para dar atmosfera ao poema-diálogo do julio, onde o corte entre lirismo e banalidade soa como um tiro...

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