sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Insônia



Todos dormiam e somente eu sabia que ela sonhava. Seus olhos se mexiam sob as pálpebras num movimento desordenado, como se fossem um reflexo de sua própria vida. Num momento, seus anseios eram pelo silêncio, em outro, por música alta e exclamações. Às vezes, temores infundados a invadiam como tsunamis inesperados e violentos. Outras vezes, eu me assustava com a sua coragem. Num dia, ela escalava a Pedra da Gávea, no outro tinha medo de viajar de avião. Quando lhe disse o quão contraditório seu comportamento era, ela me respondeu:

“Apenas não gosto de sentir que minha vida está nas mãos de outra pessoa”.

Eram quatro horas e vinte e um minutos da madrugada do dia 11 de fevereiro e ela ainda sonhava, quando decidi deixá-la.

Talvez por seu temperamento incoerente que eu mal conseguia acompanhar. Talvez por causa dos momentos em que eu me sentia dispensável frente à sua autossuficiência manifesta. Talvez pelas contradições que me eram arremessadas quase que diariamente. Ou por nada disso, mas, apenas, por achar que minha vida estava excessivamente em suas mãos.

Ela, alheia à minha insônia, continuava a dormir, profunda e distraidamente. Fiquei me perguntando com o que ela sonhava. Sei que sonhava muito e se deliciava com o absurdo de alguns sonhos.

Certa noite, me acordou agitada:

“Sonhei que estava perdida, no meio de um labirinto sem fim. Parecia um desenho do Escher. Eu podia chegar a vários lugares, mas ao mesmo tempo, não chegava a lugar algum. Senti que você não existia. Ou tinha me abandonado. Ou fui eu que tinha abandonado você. Só sei que dependia apenas de mim chegar a algum lugar. E eu não chegava. Não chegava. Estava tão cansada. Até que acordei.”
Eu queria saber se hoje ela sonhava com labirintos, abismos ou perseguições. Se sonhava comigo ou se também tentava me alienar de seu inconsciente.

“Sou apaixonado por você”, eu disse sussurrando, às quatro horas e trinta e cinco minutos, tentando adivinhar o que seus olhos buscavam debaixo das suas pálpebras pálidas. Tentei invadir seu sono como ela invadia minha vida.

Num domingo nublado, ela me disse estar apaixonada, mas depois se retraiu com minha resposta: eu sou completamente louco por você. Paixão. Era o que ela queria ouvir e eu era incapaz de dizer. Eu, atrasado e tímido, só consegui dizer isso na noite em que decidi deixá-la, enquanto ela dormia e sonhava mais um de seus sonhos desconhecidos.

Eu queria dormir e, com o sono, tentar esquecer essa vontade de, ao mesmo tempo, estar com ela e abandoná-la no seu labirinto de contradições.

Às quatro horas e cinquenta e dois minutos, ela se virou de costas e levantou o braço direito sobre a cabeça. Abriu um pouco a boca, murmurou algo ininteligível e molhou os lábios com a língua.

“Vou deixar você hoje”, eu falei.

Depois, ela não se mexeu mais e percebi que seus olhos também se acalmaram. De repente, ficou estranhamente quieta. Por um momento, achei que pudesse ter escutado o que eu disse, mas ela não me ouvia, sequer quando estava acordada. Escutava apenas o que lhe interessava. Fiquei acompanhando as idas e vindas do seu peito, no ritmo tranquilo da sua respiração, enquanto cogitava o que lhe diria quando acordasse, como faria para deixá-la e, até mesmo, quais seriam suas palavras em reação às minhas.

Ela dormia, sonhava ou não, e eu criava discussões imaginárias dentro de mim.
Às cinco horas, pontual como ela nunca foi, acordou e me olhou. Esfregou os olhos, se espreguiçou, me perguntou levemente intrigada se eu já tinha acordado e, sem esperar a resposta, me pediu, de um jeito doce, todo próprio:

“Fica comigo hoje, o dia inteiro?”

Esqueci minhas resoluções insones. Meus debates silenciosos.

Sorri.

E, simplesmente, decidi ficar.


Imagem: Eduardo Filipe, "Sama"
Texto: Danielle Costa

5 comentários:

  1. TExto bonito e emocionante. Imagem intrigante.

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  2. bonito msm! o lugar comum romântico diz q o ideal é compartilhar os sonhos a dois, mas o q fazer se nem nós temos a chave de nossos próprios sonhos? talvez fazer o q faz a personagem: narrar o sonho, por mais desconexo e escheriano q seja. gostei do contraste entre a angústia de uma vigília medida ("Às quatro horas e cinquenta e dois minutos...") e o labirinto desordenado dos sonhos, a paixão dominadora e o desejo onírico de liberdade. e quão casuais são as decisões mais "decisivas" de nossa vida...

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  3. A imagem tá linda! O texto da Dani comovente! e, realmente, Gui disse tudo: 'quão casuais são as decisões mais 'decisivas' de nossas vidas'.

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