segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O Caso N


Isso aconteceu quando eu tinha sete anos. Meu pai sempre me levava de carro, para cima e para baixo.  Eu sempre achei um saco, mas fazer o quê?  Ele trabalhava com vendas. E pra mim, uma criança agitada e imaginativa, era um martírio ficar, às vezes durante horas, dentro de um veículo enquanto meu pai visitava os clientes, entregando produtos. Longe de meus cadernos de desenhos, aquarelas e gibis, sentia-me como um peixe num poço de lava. A salvação eram os brinquedos perdidos no fundo do porta-luvas. Robôs, monstros, criaturas... De vez em quando, também, pulava para o banco do motorista e fingia que era nave espacial. Apertava todos os botões possíveis e acendia as luzes do painel. A criatividade me salvava. As epopéias imaginativas me levavam a lugares distantes, longe da entediante realidade do cenário urbano comum. De vez em quando meu pai voltava logo, noutras, demorava eras. E teve uma vez que não voltou nunca mais. O sol se pôs, escureceu e eu fiquei lá dentro, esperando. A mercê do frio, ouvindo estrondos e barulhos de máquinas. Pareciam engrenagens de parque de diversões. Adormeci. E , quando o dia raiou, apareceram seres. Eram altos, maiores que orangotangos. Suas partes robóticas refletiam o sol e um deles se locomovia com a ajuda de uma haste metálica com celulares pendurados na ponta. Este parecia ser o líder. Os outros armados com canos e armas prateadas, usavam estranhos acessórios amarrados pelo “corpo”, estruturados por canos e cabos de computadores antigos. Lembro-me que então olhei em volta e não reconheci a paisagem. Não tinham mais as habituais casas de bairro, borracharias e lojas. O mundo havia se transformado em outra coisa. Era um parque inóspito e desértico e quando olhei para o céu, ao invés de ver o sol, me deparei com um gigantesco prédio quadrado flutuando no horizonte. 


Texto: Fabiano Vianna
Ilustração: Eduardo Filipe, "Sama"

2 comentários:

  1. caramba, q sonho fantasmagórico, se é q é sonho. gosto dessas reminiscências de infância carregadas de terrores. e isto de esperar o pai q não volta me lembrou "A Terceira margem do rio". e a imagem do Sama tem toda uma "atmosfera" dessas "epopeias imaginativas". parabéns!

    ResponderExcluir