quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O sol morreria em nove minutos e ela usava Keds...

...E ele usava havaianas tradicionais, encontradas em uma mercearia no Largo dos Guimarães.
ELE: Por que será essa sensação de que você está querendo me dizer algo?
Ela mexia em sua pulseira de pequenas argolas que supostas índias pobres haviam feito em um povoado no meio do Rio Negro.
ELA: Você e sua mente sobrenatural de novo, vendo fantasmas onde...
Estavam na ponta da Pedra do Arpoador, diante de um mar verde musgo, enquanto o sol agonizava lá na direção oposta ao caminho feito pelas gaivotas.
ELE: É que este seu silêncio...
Ele se contorceu levemente para pegar uma barra de cereais e ervas que havia trazido de uma loja verde na Cobal.
ELE: Você quer?
Os pés dela espremiam-se de forma sofrida dentro de seus Keds brancos da Urban Outfitters.
ELA: Você só tem essa.
ELE: Vamos dividir.
O sorriso no rosto dela merecia uma trilha sonora feito pelos Everything But The Girl, em um momento mais melancólico.
ELA: Nunca lhe passou pela cabeça que em relação a algumas coisas, um pode não ser o bastante?
Os olhos castanhos dele, por trás de ray-bans estilosos pareciam procurar decifrar os segredos de um novo gadget. É isso, talvez ela fosse um gadget.
ELE: Por que tanta filosofia? Eu só  estou lhe oferecendo uma barra de cereais.
Os olhos negros dela fizeram ele ter a impressão de que a agonia do sol iria ser abreviada.
ELA: Isso. Você só está me oferecendo uma barra de cereais.
O sorriso dele era nervoso e uma incômoda sensação de que isso tornava as coisas ainda mais difíceis.
ELE: Depois, eu é que tenho uma mente sobrenatural!
O silêncio em seguida durou um tempo diferente para cada um. Como se houvesse um fuso horário entre os dois. Três minutos para ele; talvez, alguns segundos para ela.
Ela estava com os olhos fechados e ele disse: Sei que é clichê, mas eu daria qualquer coisa para saber o que se passa pela sua mente agora.
Ela não se deu ao trabalho de abrir os olhos para responder: E na sua? O que se passa na sua mente?
Seu sorriso ingênuo, o fez parecer uns cinco anos mais novo.
ELE: Não sei por que, mas toda vez que vejo o sol morrer daqui do Arpoador, eu penso em coisas boas que virão no dia seguinte. Agora só estou pensando em coisas boas para nós dois.
Se abrisse seus olhos, ela talvez se emocionasse com o sorriso de menino no rosto dele. Mas ela sorria. Sorria por estarem em campos tão opostos.
Artes Plásticas: Ana Muniz
Sorria, enquanto imaginava todo aquele material incandescente, rolos de fumaças multicoloridas, grandes de rolos de fumaças dançando ao vento inclemente e explosões arremessando corpos vivos e mortos a milhões de quilômetros de distância, rumo ao nada.
De alguma forma, o horror da imagem lhe trazia algum prazer. O prazer de que não restaria nada mais de algo que merecia ser varrido da sua vida.
Ela, então, abriu seus olhos, na tola intensão de contar a ele.
O sol já havia morrido e lá estava a noite negra ao seu redor.
Ele ainda estava ao seu lado, com seu sorriso comovente.
E ela, pela primeira vez, sentiu um arrepio de medo.
E nada disse.

Texto: Julio Cesar Corrêa

2 comentários:

  1. não sei, mas talvez o conto poderia terminar antes da imagem msm. é uma daquelas situações q já passaram muitos casais, uma incapacidade de aceitar o mero silencio e um impulso por dizer algo, qd o melhor é ficar calado. sentir q se está "em campos opostos" é um sentimento melancólico realmente. e como é difícil terminar uma relação sem q haja uma explosão (seria mais fácil). bonita a imagem da ana...

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