sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Uma história como qualquer outra

Por um segundo, eu pensei ter perguntado algo como qual a cor da sua cueca ou qual a posição sexual preferida dos seus pais. Porque a reação dele foi de espanto absoluto. Mas não. Eu só encostei no seu braço, timidamente, dando três batidinhas com a ponta da unha do meu indicador e disse: qual é a sua história? Passado o espanto inicial, com a testa um pouco menos franzida, ele respondeu: “a minha?”. Claro que é a sua. “Mas por que a minha?”, com ênfase no “minha”. Pensei que responder a pergunta dele antes que ele respondesse a que eu havia feito, seria um gesto de confiança, algo que poderia fazê-lo se abrir mais facilmente. Então, ignorei as regras do jogo e disse: porque sim. Com a exata sinceridade que uma criança de 8 anos usa para dizer que acha a professora de português extremamente bonita. E eu nem o havia achado tão bonito assim. Agora você, eu disse, sua vez. Não era um dia quente nem frio, isso quer dizer que não havia a pressa para estar em outro lugar mais agradável, tirando o desconforto de estarmos em uma fila de banco, estar ali era um inevitável bom. Pensa comigo, é melhor do que falar sobre a infelicidade de uma segunda-feira ou sobre as senhoras da terceira idade que passam na nossa frente sem o menor pudor. Isso nem todo mundo pensa, mas todo mundo diz. Eu peço de novo. Você-pode-me-dizer-qual-é-a-sua-história? Eu não vou te sequestrar, não vou fazer você amanhecer numa banheira com um bilhete agradecendo pelos seus rins, nem vou passar um trote pra sua mãe pedindo 40 cartões telefônicos, é só porque eu te vi aqui na fila, gostei da cor da sua mochila, pensei se você daria o nome de Augusto para um bicho de estimação (intui que não) e achei mais conveniente perguntar de uma vez a pergunta que você já sabe qual é. “Meu nome é Luiz”. Tá vendo? Surpreendente, eu chutaria Bruno ou Marcelo, um nome assim mais da nossa geração. “Eu realmente não sei o que você quer saber” Quem você queria ser quando era criança, o que você estudou, se você come bobó de camarão, se você ganhou alguma medalha em natação, essas coisas também contam na biografia de uma pessoa. Com a fila andando dois centímetros a cada 20 minutos, se ele fosse Gandhi, dava tempo de ouvir a história até o final. “Ah, eu sou uma pessoa normal”, ele diz. “Minha vida não têm graça”. E sonhos, você tem? “Sonho tipo ganhar na mega sena?”. Não sei, sonho, objetivo de vida, algo que faça valer a sua história. “Eu não sei, eu não pensei muito nisso. Vim aqui pagar essa conta de luz atrasada, você me faz esse monte de perguntas”. Você tem uma palavra que te define? “Eu já disse que o meu nome é Luiz, não disse?”. Disse, mas se eu quisesse saber o seu nome, a pergunta inicial teria sido mais objetiva. Enfim, abriram um novo caixa. “Maravilha”, ele diz. Maravilha, eu digo. Chega a vez dele, a conta está paga. Chega a minha vez, a conta está paga também. Ele sai do banco. Eu saio do banco também. Ele levanta a mão, dando um tchau educado e só. Eu levanto a mão, dando um tchau educado e só também. Pego o caderninho e a caneta na mochila e começo a escrever. Luiz, 28 anos, trabalha em um pequeno negócio com o pai, mora na Rua Marquês de Abrantes, anda de bicicleta todo sábado e vai ao cinema todo domingo. Fecho o caderno, devolvo-o para a mochila. Podia ter sido uma história de amor.


5 comentários:

  1. ótima história: o luiz perdeu. aliás, acontece c/ frequencia. e a imagem da fernanda é bem diferente das q ela já postou aqui, é intrigante, bastante interessante. ótimo trabalho da dupla.

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  2. Galera, andei viajando e estive meio ausente. Ainda não li os textos, mas passando os olhos pelas imagens, quero parabenizar nossos artistas. Estão espetaculares!!!

    Abraço.

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  3. intrigante mesmo a imagem da fernanda! super sofisticada! adorei o resultado! :)

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