quinta-feira, 24 de março de 2011

OLHAR para Allen Ginsberg



Imagem: Maria Matina

Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela angústia, pela dúvida, pela morte, descalços na madrugada afogados na orla polifônica sedenta de sexo de Copacabana, se aninhando na pizza fria do Balcony mas sonhando é com a bunda das mulheres frias do Balcony.

[E elas que sonham com o homem que vai dar pra elas
casa família e filho enquanto eles sonham que a mulher
com quem terão casa família e filho tenha a bunda
dessas mulheres que sonham que eles sejam o homem dos sonhos.]

Que correm bradando os órgãos do sexo que berram
eu quero que
na verdade berram casa família e filho - com a diferença que agora se trepa.

Que se orgulham de poder trepar pra mascarar dores
fedores das máscaras que são obrigados a vestir
pra existir no meio da lama de quem
todo mundo que acha que a saída tá no aeroporto, que a saída tá
em estudar nas melhores escolas, falar inglês e francês e tá na moda o alemão
da TV, que Berlim tá bombando e que tá geral indo
esquecendo que se leva junto...

Que foram detidos pela polícia e subornaram o guarda
e pararam o carro dois metros antes e pediram
pro entregador da farmácia do Humaitá que
dormia numa cadeira de praia no meio da rua quatro da manhã
por vinte reais atravessa a Lei Seca e me deixa no posto e voltaram pra casa
depois do barraco daquele outro cara na rua que acabou acordando o porteiro
do prédio da frente que veio pedir pra se falar mais baixo
e de quebra entregar um santinho evangélico
que Jesus tem poder e vai resolver!

Que quebraram tudo mas só na vontade, porque hoje em dia
só se quebra tudo se for marginal
e a culpa é de quem
quis botar consciência
no Comando Vermelho
lá na cadeia há anos atrás
– e a licença poética me permite escrever
há anos atrás porque cabe melhor
na métrica da coisa...

Que querem fugir, fazer diferente, mas que aprenderam na escola que as utopias morreram que as religiões morreram que o mundo acabou que o dinheiro é maior
mas que não querem isso, nem sabem
o que querem, mas sabem que há de ter algo errado, porque,
porra...

Que pularam os muros, batucando nos ônibus, cavalo de pau na Lagoa, na Barra,
que quebraram o vidro traseiro do carro dando ré depois
de 38 horas acordados na mania no boliche no clube no excesso diário de álcool,
vomitando a falta de senso da vida, a falta de sono da vida, a falta de sexo da vida e tirando foto
do próprio vômito com o celular pra botar
no Facebook.

Amando as almas dos outros
dos homens-borboleta que saem de dentro do bolo
cantando Marilyn Monroe
pra você, pra sua mãe, pro mundo, que foram enterrar seus sonhos
em Campinas e se pós graduar pra fingir não lembrar que-quando
na verdade um dia
quiseram conquistar o mundo.

Que desperdiçaram seus próprios talentos
atrás de mesas de bancadas de galerias de arte de museus de escolas
de lojas de realities shows da TV a cabo
de raiva porque o mundo engole o dinheiro engole
e o boicote engole mais do que tudo, e alguém precisa comer nessa porra, e morar,
e beber, e ter o dinheiro do cigarro,
e ter o dinheiro da maconha pra dar pro traficante e ter
o dinheiro da analista pra tentar ter dinheiro e não precisar
dar pro traficante.

Eu vi os expoentes da minha geração que reuniam-se em casa nas noites pra clonazepam com vodka com sorvete de creme e sorver a cremosa massa disforme e ver supernovas cometas halos satélites e voltar e ter
que levantar cedo do ninho da cama do útero e trabalhar e ganhar meia dúzia de mariolas e aguardar em ânsias na folhinha a próxima sexta pra clonazepam vodka e sorvete de creme mais uma vez.

Que depois de cruzarem a fina linha
do fantástico e maravilhoso mundo dos pacientes psiquiátricos,
tomam zoloft, ibuprofeno,
anfetamina, fenobarbital,
quetamina, haloperidol,
quetiapina,
desvenlafaxina, divalproato de sódio,
alprazolan, fluoxetina, clonazepam.

[e nesse exato momento em que digito isso com a mão esquerda e o dedo direito aquele do cu único livre da tala da tendinite da LER que também é doença do século, cai no chão um cartão de visitas, pego e olho e Dr Fulano de Tal – Psiquiatria Clínica – aquele que me salvou.]

Que, obrigados pela necessidade fisiológica, fizeram xixi do lado de fora no capacho das portas de seus namorados, que de trinco fechado sofriam efeitos da neve gulosa brilhante da benzoilmetilecgonina, enquanto eu
esperava sentada na calçada da carrocinha de cachorro quente da subida da Pereira da Silva
de cerveja na mão.

Que quebraram a porta, que quebraram o concreto, que bateram no namorado, levaram porrada
do homem da vida e juraram que nunca mais iam beber nem tomar morfina e botaram a perna
por cima do parapeito
da janela e juraram que nunca mais iam viver
e mentiram.

Eu vi os expoentes da minha geração que culparam seus pais, perdoaram seus pais, mataram seus pais, comeram seus pais e tóxicos continuam querendo ser pais pra tentar acertar dessa vez [como se não fosse tudo no final a mesma coisa].

Que tentaram lutar, tentaram correr, mas acabaram sucumbindo
à sibutramina que fode a cabeça que pira a insônia que surta a histeria
que termina namoro que termina família mas que deixa magra que é uma beleza,
quase caveira e que foi proibida.

Que quiseram se expor, na arte, cinema, lambança, no todo mundo nu com nutela
mas ficaram com medo e preguiça da exposição, das tripas pra fora, do cabeça pra baixo e acharam que não valia mais a pena e viraram fiscais, analistas de sistema, funcionários do governo,
mas não pra salvar o mundo...

Que acharam que não tinha mais isso de preconceito em pleno século
vinte e um e descobriram que os próprios donos do mundo preferiam
que não existisse viado, que não existisse lésbica que não existisse
travesti que seus filhos não fossem outras pessoas que fossem só extensões
de si mesmos, e que ainda assim lamberam chuparam urraram de graça porque tá valendo.

Que, hipnotizados na frente da TV, viveram as vidas dos outros, dos personagens inventados por outros, que também queriam viver outras vidas,
que não levantaram do sofá por três dias seguidos
que não tomaram banho por uma semana
que gritaram me ajuda e ainda tiveram que ouvir
a Maria Rita Kehl, que até é uma pessoa bem inteligente,
dizer que depressão é que nem o dandismo
é um estado de espírito contra o estado das coisas,
o que até pode ser, mas que eu queria era ver se ela ia dizer isso e achar tão bonito e revolucionário se
fosse ela que estivesse no fundo do poço, no fundo do escuro querendo morrer.

Eu vi os expoentes da minha geração que se jogaram do sétimo andar e não morreram
e tiveram
que lidar com o fato de que ninguém foi
no hospital visitar quando estavam quebrados,
engessados de perna pra cima e que
a mãe teve que ligar e falar pra todo mundo meu filho é legal
e que mesmo assim ninguém foi e logo a mãe – que era o motivo de tudo.

Que não conseguiram se matar, que conseguiram se matar, que cortaram os pulsos mas não pra morrer, só pra sentir uma dor verdadeira, dor que fosse física, dor que fosse sangue.

Eu me vi no olhar vazio e triste dos expoentes da minha geração,
que calaram o Uivo e pronde quer que olhem
não encontram caminho, nem mesmo na morte...

Texto: Maíra Fernandes de Melo

5 comentários:

  1. Essa postagem tá um clássico!
    Que imagem.
    Texto genial Maíra! Impressionante mesmo!

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  2. uauauauauauauauauuuuuuuuuuuuu! é meu uivo pra maira!

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  3. Estou CHAPADO! Impressionante esse texto. Essa imagem de múltiplas possibilidades compõe o post que, vou te falar, é uma obra-prima.

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  4. Caralho, que porrada esse texto, Maíra. Que bom que o li no dia da minha terapia. Mandou bem pra caralho!

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