sábado, 19 de março de 2011

Quarta-feira de cinzas

Numa casa em que almofadas ficam distribuídas simetricamente no sofá e em que meias sociais são dispostas em fileiras na gaveta, eu – fantasiado como rainha da cintura para cima, e apenas de calcinha e uma meia-calça rosa do umbigo para baixo, tudo absolutamente apertado – era como um palhaço em pernas de pau em meio a uma formação do exército norte-coreano, um sobretudo no verão carioca, um folião no carnaval de Belo Horizonte.

À minha volta não via celular, dinheiro, chave de casa, carteira ou meus trajes cotidianos. Nada que me ligasse à minha vida, que criasse um link com a realidade à qual estava acostumado. O computador do apartamento não ligava. O calendário da cozinha não tinha os dias riscados. Tudo o que restava do mundo exterior era a sensação da farra da véspera ter sido boa. Sentimentos, por serem uma construção, são mais memorizáveis do que fatos, que são externos. E eu sentia uma grande necessidade de descobrir ao menos que dia era. Tentei reconstruir os fatos. Minha última lembrança, entretanto, era eu no ônibus, indo para um bloco. Era terça-feira, se não me engano, então quase certamente hoje era quarta-feira de cinzas. Tentei ligar a enorme TV de LED para me situar com o mundo, mas não funcionava. Na falta do que fazer, fui perscrutar a casa. Ali parecia viver uma feliz família burguesa. Fotos de um homem bem apessoado e altivo abraçado a uma recatada e loira senhora, se espalhavam pela casa, entrecortadas por imagens de uma menina de cerca de onze anos espevitada na medida do fofura. Os adornos ocupavam os exatos centímetros a eles destinados, tudo comme il faut, menos a imagem que eu via no espelho.

Para complicar o enigma, me sentia perfeitamente bem. Sem dor de cabeça ou sede, nada indicava uma ressaca. Essa, na verdade, era a parte mais intrigante de todas. Pululam histórias de amnésias alcoólicas, mas de amnésia abstêmia não conheço uma sequer. Bem, o fato é que alguém me tinha posto naquela situação. Seja quem fosse, teria que tirar-me, então, uma vez que a porta da rua estivesse trancada, eu ficaria sentado na poltrona da sala aguardando ajuda de algum morador que chegasse.

Minutos depois ouvi barulho de chave. Me levantei, mas apesar de me colocar de forma a fazer clara minha presença, fui solenemente ignorado. O casal das fotos entrou e foi direto para o quarto onde eu havia acordado. Chamei-os e foi como gritar para uma mosca. Segui-os até o quarto, onde me espantei ao me ver estirado na cama, com meus trajes normais, embora tudo meio fora do lugar (calça no pé, camisa no pescoço), com o corpo talhado por incontáveis perfurações. Eles começaram a arrastar meu corpo para o quintal. Novo barulho de porta abrindo. A espevitada de onze anos das fotos, em trajes idênticos aos meus (rainha do sabá pornô?), entra no apartamento como quem adentra numa cena de último capítulo de Glória Perez. Os berros são ensurdecedores. Entre “eu quis”, “foi bom”, “vou ligar pra polícia” e “nunca tive tanto prazer na minha vida”, ouvia-se o estampido surdo dos socos do pai, enquanto, no quintal, sobre o meu cadáver, subia uma fogueira de são joão em plena quarta-feira de cinzas.


Imagem: Fernanda Franco.
Texto: Renato Amado.

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