quarta-feira, 2 de março de 2011

Uma velha, um facão e um martelo



Antes...

Interiores de Guapimirim, um pequeno sítio, suas plantações, Dona Rosemary e seus cães. Uma viúva pacata, 80 anos, que cuidava do seu sítio, sozinha. Acordava às cinco da manhã, fazia o café, cortava a grama, lia sua bíblia, colhia os vegetais, alimentava os animais, queimava o lixo, cortava o coco. Sozinha e entediada com a vida, se sentia abandonada por tudo e por todos. Ninguém ligava, ninguém se importava. Não tinha feito o suficiente para que dela se lembrassem? E agora, velha e acabada, ninguém sequer lhe mandava um cartão.

Aí veio, começou...

Gostava de escutar o rádio, mas agora do rádio só vinha horror. “O grande fogo” diziam. Aviões, bombas, mortes. Dona Rosemary se aterrorizava com aquilo, e junto com os pastores do rádio, rezava sem parar para que tudo acabasse bem. Mas todos não paravam de clamar que era “o fim dos tempos”. Assim, se seguiu até que o rádio parou e só estática se manteve. Os vizinhos do sítio ao lado sumiram numa noite, levaram tudo, só as galinhas deixaram. Dona Rosemary clamava a Jesus por uma resposta. E dessa forma tudo se manteve até que eles apareceram. Um casal: marido, mulher e filho. Gritavam no portão, pediam por ajuda, e ela como a boa cristã que se acreditava, lhes ofereceu. José, o homem, Carla, a mulher, Pedro, a criança de uns seis anos. Preparou os vegetais, matou uma galinha, os alimentou. E com seus estômagos cheios, começaram a contar. Contaram da anarquia na cidade grande, como após as bombas, a luz e a água pararam, a praga se espalhou, e os sobreviventes se desesperaram. Contaram dos saques, e das lutas de gangues, como a polícia e o exercito logo se desintegraram em mais uma gangue. Contaram do fogo e dos enforcamentos. Como o morro desceu primeiro, mas como após subiram no morro e o sangue jorrou. Seus relatos assustavam Dona Rosemary, mas ela lhes assegurou que ali teriam tudo que necessitavam para sobreviver. Se faltassem alimentos era só mais plantar, pois o campo não estava todo ocupado. E as galinhas poderiam não dar para todos, mas seus ovos dariam. Só havia um problema, seu cão pit-bull, Jujubas, não gostava deles, e eles a isso retribuíam. Os dias se passaram, e a cada dia que ia, a gratidão se tornava insatisfação. Por que sendo eles uma família toda tinham que dormir numa sala, enquanto ela ficava com um quarto grande todo para si? Como podia aceitar aquele cão que não parava de latir para eles? E se soltasse e atacasse seu pequeno filho? Como podiam só viver de vegetais e ovos, pelo menos de vez enquanto deveriam poder comer uma nova galinha? E meu deus, por que ela continuava a alimentar os animais com pedaços de isopor? Foi quando numa manhã, os encontrou esperando na mesa do café. Disseram-lhe um “chega”, que agora comandariam a ordem naquela casa, e ela deveria lhes obedecer. Dona Rosemary se sentindo velha e cansada, tentou relutar, falando de tudo que fizera por eles, mas por fim nada adiantou e cedeu. Passou a dormir no sofá da sala, e viu como matavam as galinhas sem nenhuma preocupação com o futuro. E assim se seguiu por uma semana, quando um dia durante o almoço, Jujubas começou a latir sem parar. Carla, a mulher, se irritou e mandou o marido fazer ele parar. José levantou furioso e disse que daquele momento o cão não mais viveria. Foi pegar uma pedra para esmagar seu crânio. Porém, para Dona Rosemary isso já era demais. Poderia aceitar tudo, mas seu Jujubas não deixaria ser morto. Pegou seu martelo e ameaçou José. Esse por sua vez só riu, e continuou em direção de matar o cão. Dona Rosemary não hesitou, e com uma punhalada, abriu-lhe o crânio com o martelo. Carla, nesse momentConjunto vencedor do 14º Encontro.o, gritou, pegou um garfo e foi em sua direção, acompanhada do pequeno Pedro com uma faca. Dona Rosemary acertou com o martelo sua mão, a fazendo soltar o garfo, e depois entrou em combate com a mulher. Quando Pedro, enfiou uma faca em sua perna. Nesse momento, Jujubas se enfureceu, arrebentou a corrente que o prendia, pulou para a área onde ocorria a luta, estraçalhando o garoto com seus dentes. Sua mãe, Carla, desesperada, virou para atacá-lo. E foi nisso que Dona Rosemary, recuperando suas forças, lhe enfiou um facão de cortar coco nas costas. Lá estava ela agora, com uma ferida na perda, numa casa com três cadáveres estirados na copa, e só uma galinha ainda sobrevivente para lhe dar ovos.

Foi uma semana até que sua perna pudesse ser usada mais uma vez, e, então, Dona Rosemary tomou uma decisão, deveria sair. Não podia ficar ali escondida, enquanto o resto do mundo se acabava, deveria agir. Assim, pegou a winchester de seu falecido marido no armário e colocou-a nas costas. Guardou seu martelo e facão numa bolsa, junto com alguns vegetais. E, acompanhada de seu cão Jujubas, partiu em direção da cidade. No caminho, encontrou um cavalo, o domou e fez dele sua montaria. À distância, já se podia ver a fumaça correndo para os céus.

Vídeo: Daniel Matos
Texto: Daniel Matos
Vídeo vencedor do 12º Encontro, com o texto vencedor do 13º Encontro (inspirado no vídeo).

Um comentário: