quarta-feira, 6 de abril de 2011

Descompasso

O vigia passa em sua bicicleta barra forte e forja vigiar com seu apito que de nada serve. O vigia compactua com o ladrão que compactua com o tiro que compactua com a vida em termos de controle de população e distribuição de renda. E eu lavo os cabelos, rezo meus terços e que Deus proteja minha casa. Milimetrada em descompasso, eu sigo. A cada polegada do caminho, penso no que é certo ou errado, e já não é de minha conta. Calculo distâncias para não correr o risco de seguir em linha reta o que se tornara abismo. Entrego tudo nas mãos do livre arbítrio. Houve um tempo em que eu costumava planejar tudo: do concreto ao absurdo. Hoje não mais. Cansei das margens tortas que não me deixavam caminhar sossegada minha vida desenhada em folha de rascunho própria para o equívoco. Hoje estou medindo cada centímetro do que digo. Não me deixo falar em combustão porque ninguém irá ouvir. Saio de casa com a boca entupida por algo a dizer e, no ponto de ônibus, ninguém sorri, ninguém é livre, ninguém mais observada alma alguma. E ninguém mais fuma nesse mundo. Cigarro causa câncer. Pergunto-me o que mais não causa desgraça para acabar com nossa raça. Mundo cão sem rumo. Meu destino é, a alguns metros de casa, uma livraria. Veja só como estou bem. Posso, em meio ao sujo, ao podre e inacabado tempo que ostentamos, frequentar livrarias. Procuro algo para ler. Qualquer coisa. Qualquer livro. No canto, perto do café, dentro da livraria, algumas pessoas descansam suas bundas em poltronas felpudas e folheiam livros de auto-ajuda. Respiro minha dose de gás carbono e vou, de prateleira em prateleira, buscar o que talvez eu não queira saber. Talvez seja melhor a cegueira ao invés disto: pessoas e suas caras de quase vivas mortificadas almas lendo regras para solucionar o que não tem conserto. Volto para casa e o cabelo secou. E o vigia volta à noite, corajoso de preguiça, sentindo fome e cobiça, compactuando com as regras que nos entortam as pernas e não passamos de escravos, postergados e imaculados, vivendo do que nada restou.


Por Letícia Palmeira

Imagem de Diego Kaeli


2 comentários:

  1. Gostei do texto, mas o que me chamou a atenção mesmo foi a imagem. É das coisas mais instigantes que já vi por aqui. Deve ter sido um prazer trabalhar com ela, Letícia que o diga! =P

    Abraços,

    Igor

    ResponderExcluir