sexta-feira, 29 de abril de 2011

Pena


Imagem por Diego Kaeli

Quando eu abri os olhos novamente, estava num campo razoavelmente aberto, lotado e um pouco escuro. Conforme os olhos foram se acostumando ao escuro, identifiquei uma casa grande, quase um prédio, cercada por uma infinidade de sujeitos parados.
Alguns andavam, também; apenas um corria o tempo inteiro em volta da casa, numa velocidade assustadora. Perguntei a um homem ao meu lado onde estávamos. Ele me respondeu: “No inferno”.
Nesta hora me lembrei do caminhão vindo contra o carro, da rápida conversa dos paramédicos... Com um pouco de esforço me lembrei do som da sirene. Nada disso me entristeceu. Perguntei ao mesmo homem por quê. Ele respondeu: “Esta é a pena. Tristeza é algo que se sente, e no inferno não se sente nada”.
Continuei me lembrando de algumas coisas, mas todas pareciam retratos muito nítidos de pessoas muito inúteis. Mesmo a lembrança dos meus filhos, da minha mulher, dos amigos de infância, tudo era apenas uma imagem a mais num álbum que eu normalmente sentiria vontade de jogar fora. Não aqui, porque no inferno não se sente nada.
Alguns passam carregando comidas apetitosas e vinhos raros para nos oferecer. Nós conseguimos nos lembrar do quanto gostávamos dessas coisas, e o vazio de não gostar mais delas poderia facilmente nos dar a sensação de sufocar dentro da gola da própria camisa. Não aqui, porque no inferno não se sente nada.
Muitas mulheres nuas pedem sexo para mim. As mais atiradas falam a meu ouvido e muitas vezes me mordem os lábios, sem que eu sinta qualquer vontade de satisfazê-las. Já perguntei ao mesmo homem por que, se aqui não se sente nada, elas dizem sentir tesão por mim. Ele categoricamente respondeu que elas não existem. Disse ainda que numa situação dessas ele normalmente sentiria muita vontade de rir de mim.
Não aqui.
Não há dias ou noites. Não há horários quando não há desejos. Normalmente não se come nem dorme. Volta e meia alguém comenta que se lembra do que é dormir e se deita; uma vez esbarrei numa senhora que se aconchegou em posição fetal mas não conseguiu cerrar os olhos. Ela nem tentou. Não teve vontade.
Um jovem garoto brotou ao nosso lado certo dia e questionou como seria possível transgredir as regras do inferno. Muitos sugeriram coisas como derrubar os funcionários, entrar na casa, gritar que sente alguma coisa. Eram ideias muito boas e todos reconhecemos isso, mas como ninguém sentiu vontade de realizar qualquer uma delas, continuamos estáticos. Inclusive o jovem.
Depois de algum tempo, não sei dizer quanto, um homem bem vestido apareceu por ali. Usava roupas do século XIX, porque lembro de ter visto roupas deste tipo fora daqui. Ele era o único que parecia andar com algum propósito, observando a tudo e a todos. Perguntei ao homem que continuava a meu lado quem ele era. Ele respondeu que aquele era o proprietário do inferno, que o adquiriu por volta do ano de 1832 e o vem administrando com muito sucesso desde então. Perguntei como ele sabia que era um sucesso, e ele me disse: “O público só aumenta”.
Pensei em me aproximar dele e pedir um cargo que me permitisse alguma coisa, algum sentido, algum sentimento, algo que me desse aquele andar cheio de propósito com que ele caminhava por ali. Eu tive todos esses pensamentos mas não realizei nenhum deles porque não senti vontade.
Ele, no entanto, se aproximou de mim. Vi que ele tinha o corpo coberto de penas. Na verdade, ele se parecia com uma ave de rapina – eu me lembro do que são aves de rapina. Não senti medo - claro. Falei com ele que as aves de rapina podem voar.
Ele respondeu: “Eu sei. Eu também posso”.
“Então por que não voa?”
“Porque não sinto vontade”.
“Nem de voar? Voar pra fora daqui?”
Ele me acertou no rosto com seu bico. Minha pele cedeu e muito sangue manchou minha roupa.
Eu não senti dor.
E pela primeira vez reparei que talvez não sentir nada tivesse um lado bom. Eu poderia contar isso para todos ali.
Mas não senti vontade.

Texto por Saulo Aride.

3 comentários:

  1. puxa, muito bom, a começar pela imagem, insólita, digna do diego kl. e este inferno de anestesia afetiva está muito mais próximo do q se imagina...

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  2. idem, comentário 1, imagem kafkiana absoluta, boa dupla.

    tnks

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