sexta-feira, 8 de abril de 2011

Qualquer guerra


Imagem por Rudy Trindade

A guerra - qualquer guerra - funciona assim.

Um grupo de pessoas acredita em determinada coisa, ou valor, ou deus, enfim. Pode ser até que eles acreditem que desejam muito certo pedaço de terra, mas é importante pensar que desejar é pouco, eles precisam acreditar naquilo.

Outro grupo acredita em outra coisa, ou valor, ou deus, enfim. Eles podem acreditar que precisam daquele mesmo pedaço de terra, mas também é importante que eles, mais do que desejo, tenham a crença.

É importante saber que todos acreditam em algo porque depois que a guerra acaba, o grupo vencedor automaticamente transforma aquilo que acredita em verdade absoluta. Porque a verdade é melhor do que a crença, já que ela traz dinheiro, traz fama, traz poder. Ser do grupo que dita a verdade é ter poder.

Para alguns, o poder se reverte em luxo, em dinheiro. Para outros, o poder é só aquela sensação gostosa de deitar no travesseiro e pensar: “Caramba, eu acredito nas coisas certas. Eu acredito na verdade”.

Os dois grupos querem ditar a verdade, e para isso eles convocam um número imenso de jovens para matarem outros jovens de modo a transformarem suas crenças em verdade. É importante que sejam jovens porque os jovens acreditam muito fortemente nas coisas que outros jovens também acreditam.

Também é muito importante convencer os jovens de que, se você acredita em alguma coisa, ou valor, ou deus, enfim, isso significa que todo mundo que acredita em outra coisa, ou valor, ou deus, enfim, está errado e deve ser combatido. O jovem, a princípio, não vai entender isso, mas aí é preciso dizer a ele que ele vai entender, depois que a guerra acabar.

Assim, os dois grupos conseguem reunir um número grande de jovens e pendurar armas bem pesadas nos seus ombros. É importante que sejam armas pesadas porque elas permitem matar um bom número de outros jovens sem que seja necessário chegar muito perto deles; afinal, eles podem estar usando armas pesadas também.

É importante prometer aos jovens que quanto mais jovens eles matarem, mais poder eles vão ter. Esse poder normalmente não é luxo, dinheiro, mas é aquela sensação gostosa de deitar no chão sobre a mochila e pensar: “Caramba, eu acredito nas coisas certas. Eu acredito na verdade”.

Quando os dois grupos têm seus jovens reunidos e suas promessas feitas, a guerra pode começar.

Porque isso tudo é antes.

Antes da guerra.

Na hora da guerra é diferente.

Na hora da guerra não existem jovens.

Ou crenças.

Muito menos verdades.

Na hora da guerra só existem as mágoas.

A guerra - qualquer guerra - funciona assim.

Texto por Saulo Aride

4 comentários:

  1. Boa Saulo! Rudy, que preocupação. Onde vc anda se metendo para conseguir boas fotos, meu bom (aliás, que foto!)? ...rsrs...

    Abraços.

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  2. Belo texto.
    A foto? Ocupação de morros(comunidades) no engenho novo...

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  3. parece foto do robocop q, por sinal, vai ser filmado por um brasileiro da tropa de elite. mas elite msm é este txt do saulo: tenso. muito bom!

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