quarta-feira, 20 de abril de 2011

Quando O Universo Fala

Imagem  por Maria Matina Benet Domingo


Quando ela falou que acreditava na veracidade da linguagem das energias cósmicas, ele tomou um gole do seu San Fernando. Ela aproveitou a oportunidade para dizer que a humanidade caminhava para o aprendizado, que a sintonia com o universo deveria ser o destino de todo homem. A música começou a tocar e ele pediu que ela expusesse os seus argumentos.

Estavam num restaurante italiano e o garçon serviu a entrada. Ele disse que o imponderável é uma ilusão. Ela disse que o amava e ele tomou mais um gole do vinho. A cantora negra subiu no pequeno palco e eles bateram palmas. A cantora negra anunciou o primeiro número, Mr. Wrong, de Sade Adu, Mathewman e Demman Hale. Ele segurou a mão dela. A banda se pôs a tocar e eles trocaram sorrisos. A cantora negra começou a cantar e ele mergulhou nas profundezas dos olhos aflitos da garota.
"Tenho que admitir que gosto de você. E isso não tem nada a ver com o Cosmos.”
“Mas foi uma brincadeira do Cosmos estarmos juntos aqui.”

He don´t care

Where he´s been playng

Ele soltou uma gargalhada , jogando a cabeça para trás. Parecia desesperado em tentar mostrar que não estava desconcertado.
“Brincadeira do Cosmos?”

He don´t hear

A word she´s saying

“Você por acaso entendeu o que falei?”
Diante da seriedade dela, ele riu ainda mais. A cantora negra desceu do palco e passou a desfilar por entre as mesas e, resignada, ela disse:
“Tudo bem, acho que foi uma besteira o que falei.”
Ela comeu uma torrada e ele segurou a mão dela.
“Você é tão bonita! Até me pergunto se mereço você.”

She´s a fancy girl

Ele passou a mão nos seu rosto e ela abriu o cardápio. As mãos dele alisaram a pele de seda. Os dedos dela deslizaram sobre o plástico. Ela fingia ler os pratos, só para escapar do olhar dele. Ele fingia acreditar estar dominando a situação.

So why´s she staying?

“É mesmo?”, ela com desdém e ainda evitando o olhar dele.
Ele perguntou se ela estava aborrecida e ela devorou mais uma torrada.


Hanging on for Mr. Wrong

“Bem,...”, o olhar voltou à posição de antes. Se fossem um murro, o olhar dela o teria nocauteado. “Não pense que eu o estou ecostando na parede, mas eu gostaria de saber se...eu preciso saber se...”

He doesn´t show her that he needs her

“Eu sei o que você quer saber. Aquela conversa sobre o Cosmos...”
Ele riu como um menino e ela pareceu se transformar numa cobra, prestes a dar o bote.
“É que algumas coisas precisam ficar claras.”, ela, tentando esconder o esforço que fazia para manter a delicadeza.

She doesn´t know his love is a lie

“Eu não amo você. Não posso te amar.”, ele, sorrindo, como se houvesse em sua boca morangos com chantily.

She´s a fancy girl – got to be strong

O garçon lhes encheu os copos de vinho e ela pediu mais uma garrafa. Ele concordou, pois também precisaria.
“Sou casado. Somos adultos. E sempre deixei claro que nunca serei seu totalmente.”

Say so long – Mr. Wrong.

Ele voltou a alisar a mão da garota – precisava confortar suas vítimas antes de abatê-las. E ela olhou para os lados – precisava manter as aparências.
“Estou sendo bem claro?”
Ele tomou um longo gole de vinho. Ela providenciou um longo suspiro, como se estivesse numa aula de ioga.

Get out on your own, girl

“Exitem milhões de maneiras para alguém ser claro e você escolheu a mais cruel.”

Show him how

Ele, de novo, os morangos: “Não gostaria de vê-la partir. Mas se você preferir assim.
O garçon trouxe o vinho. Ela, de novo, a ioga.

You can be strong, girl

"Eu preciso de você.”
Enquanto enchia mais uma taça de vinho, havia sessenta por cento de cinismo e quarenta por cento de desencanto no sorriso dele.
Eu sou o famoso diretor do maior canal de tv da América Latina e você é uma atriz iniciante. Sei que você não está mentindo.”
Ela fez um silêncio longo e ele não parecia estar constrangido. Ele parecia inflexível e ela esticou o silêncio, tentando ser cautelosa. Tentando ser cautelosa, examinou o rosto dele e encontrou o sorriso, agora cem por cento cínico. Ela tentou desesperadamente prolongar o silêncio, enquanto tentava captar algum sinal do Cosmos, e ele esperava. O sinal não veio ou ela não conseguiu encontrar algum. Tudo por causa daquele sorriso dele que a desconcentrava.

You don´t need him now
Ele ainda sorria, cínico, e ela, para sobreviver àquilo, mostrou-se digna, para que ele não percebesse o quanto ela se achava o contrário.
“É apenas por isso que estou com você.”, ela atirou a esmo.
Mas foi bala de festim contra a fortaleza dele.
“Ótimo. Isso torna as coisas mais fáceis.”, ele, submetralhadora MP5K, da Hecler 7 Koch, alemã, capaz de derrubar qualquer dignidade a quilômetros de distância.

Run away, pretty girl

“Sim.”, ela, respirando forte antes de dizer a frase mais difícil da sua vida (velhos iogues faziam isso há séculos, havia lido no folder do curso de ioga), “E você me prometeu um papel na próxima novela das oito. É por isso que estamos aqui.”
“Claro. Pode contar comigo. Fomos unidos pelo Cosmos, não?”
“Posso confiar em você?”, ela, forte. Da mesma forma como a suavidade do ar pode transformar-se em rajada de vento.
Ele, entre dois goles de San Fernando:
“Claro. Da mesma forma que você confia no Cosmos.”

Say so long – Mr. Wrong

Ele terminou o seu vinho e a encontrou examinando-o, como quem examina um olhar enigmático em uma pintura.
“Posso mesmo confiar em você?”
A cantora negra se aproximou da mesa deles e ele voltou a encher a sua taça de vinho.
“Já disse que sim. Santo Deus! Isso parece um jantar de negócios!”
Os restos das palavras dele ainda estavam no ar, quando o garçon apareceu para servi-los. Ele serviu-se, perguntando-se se sua mulher havia desbloqueado os seus cheques. Ela serviu-se, perguntando-se por que o universo não lhe enviava um sinal.

Run away, pretty girl

Say so long – Mr. Wrong

Jantaram.

Texto por Julio Cesar Corrêa

3 comentários:

  1. Adorei!, oie adorei seu blog. Muito bom esse texto, as imagens.
    Parabéns!
    Bom feriadão!

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  2. legal a união entre imagem, txt e "musica". ficou ótimo. "He doesn´t show her that he needs her", well, well...

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