sexta-feira, 1 de abril de 2011

Uma História Comum

Foi morte de raspão. O homem quase que não morria. Como é isso, menino? Como que se morre de raspão? Era a mãe e o menino conversando na fila do supermercado e, enquanto a mãe colocava os produtos na esteira do caixa, o menino falava. Foi sim, mãe. Eu vi. Fiquei de pertinho olhando. Eu já disse pra você não inventar conversa, menino. Mãe, não é conversa não. O homem quase não morre. Foi tudo de raspão. E foi por causa de um sem querer que houve com a polícia. Como é isso, menino? Que é isso de sem querer? E, no meio da conversa, passa caixa de sabão, papel higiênico, pano de pia, escova de dente (quem botou esse chocolate, menino? Foi você? Já disse que não vou levar coisa cara. Isso não é comida). E o menino ia que ia falando da morte de raspão e do sem querer entre o homem e a polícia. A moça do caixa, muito bem humorada, dizia que o filho da mulher era esperto. Garoto esperto, né? Vai dar pra estudioso. A mãe dizia que o menino dava pra inventar conversa. Se você der trela, ele inventa tua vida inteira. É mesmo? Foi dizendo a moça do caixa enquanto checava preço de pacote de macarrão. O menino saltou pra frente da mãe e da moça do caixa e continuou. Eu vi. Fiquei parado na esquina e vi tudo que aconteceu. Primeiro chegou a polícia, depois o homem saiu, aí começou uma conversa muito alta (como quando a senhora me manda tomar banho, mãe) e o homem disse que não ia. Eu acho que talvez a polícia devia ter esperado, mãe. Acho que o homem ia acabar tomando banho mesmo. Menino, polícia não manda ninguém tomar banho. Então, mãe, a polícia é igual a senhora. Gosta de dar ordem e com a mesma cara e o olhar brabo parado na gente. A senhora já foi polícia, mãe? A moça do caixa riu e apertou um botão e pediu pra um rapaz de patins ir ver o preço de um pote de doce de leite. A mãe do menino sempre compra doce de leite pro pai do menino. A senhora tem sorte. É bom ter filho que conversa com a mãe. A mulher retruca: tu já tem filho? A moça diz que não. A mulher continua: então você vai ver o que é bom quando tiver o seu. As duas riem cúmplices de uma piada sem graça. Mulher gosta de dizer que é fértil e tem filho e marido. Principalmente quando encontra outra mulher que ainda não tem filho que é pra acabar com qualquer sonho que a outra possa ter. Esse menino aqui já me deu muito trabalho. A mulher passou a contar vantagem das noites não dormidas, do leite no peito, dos remédios e a moça do caixa ouvia e dizia Jesus Cristo e Ave-Marias. O menino, de pé ao lado de umas revistas, continuava falando. Foi lento, mãe. Ouvi um outro homem dizer. De raspão e lento. A polícia chegou e pá. Que é pá, menino? É barulho de arma, mãe. E você ainda com essa conversa, menino? Me passa aí o coador de café. O menino se estica no carrinho de feira e ajuda a mãe com os produtos. A moça do caixa vai passando a compra, a mãe finge que ouve o menino e o menino quer contar o sem querer de raspão. E teve gente gritando, mãe. Me pediram pra sair de perto. Que aquilo não era coisa pra criança não. Menino, pára com essa historia de polícia. Eu não quero mais ouvir. Mas a senhora precisa ouvir, mãe. Ah, disse a moça do caixa. Deixa ele terminar a história, tadinho. A mãe ameaça permitir que o menino fale. E ele fala. Aí o homem levantou as mãos e a polícia perguntou coisa. Um monte de coisa. E pá. Pá e o homem morreu, né? Diz a mãe já alterada de olho na tela que diz o preço da compra e checa na bolsa pra ver se tem o dinheiro e ainda bem que hoje eu trouxe suficiente. A moça do caixa fica impaciente porque o rapaz de patins não vem com o preço do doce de leite e a fila aumenta e a gente começa a reclamar da demora e a mãe do menino diz que sem doce não vai porque o marido adora aquele doce. O menino ainda fala do sem querer da polícia e mãe, a senhora foi entrando no ônibus e me chamando. Devia ter me deixado lá pra ver. Por que não me deixou lá pra ver? Menino, cala tua boca. Não tá vendo que tô ocupada com a feira. E teu pai deve estar em casa achando que tô batendo perna e moça, cadê o rapaz com o doce de leite? A moça aperta botão de novo, vem gerente de supermercado, vem outra moça de uniforme (checa o preço na lista, menina) Mas o produto não tá listado, diz a moça do caixa, e a mãe se impacienta e a gente da fila começa a dispersar, outra gente fala alto, reclama da demora e é quase multidão quando o menino puxa de levinho a saia da mãe e diz que hoje ela não precisa levar doce de leite que o pai não vai comer. Foi de raspão, mãe. Eu disse pra senhora que a polícia matou o pai sem querer. Ele quase fica vivo. E a senhora não quis ver.



Texto: Letícia Palmeira
Imagem: Rudy Trindade

4 comentários:

  1. Letícia Palmeira1 de abril de 2011 22:07

    Gente, a imagem do Rudy ficou perfeita. Policiais conversando como se nada mais pudesse acontecer. Uma imagem que nosso costume à brutalidade faz com que seja trivial. Mas nada há de comum em ver estes homens de uniforme na frente de nossas casas.

    Valeu pela imagem, Rudy.
    Um abraço para todos.

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  2. guilherme preger7 de abril de 2011 09:19

    uma cena muito bem montada, quase cinematográfica, com final surpreendente. e a imagem do rudy é a própria tradução dos estreitos e becos sombrios das nossas cidades onde a lei se confunde com o crime. concordo com a leticia: estranhe o q for normal...

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